| Alexandre Bicalho |
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Almas Gêmeas
(Alexandre Bicalho)
Mais um dia! Ele acorda já cheio de compromissos, reuniões e
apresentações agendadas, e quando se dá conta o dia quase
se foi. Deixou algumas coisas de lado para poder almoçar. Escolheu um
restaurante aconchegante em que pudesse descansar enquanto comia algo. Tirou
da sua pasta - uma pasta que carrega atravessada ao peito - o livro que começou
a ler no sábado à tarde. Uma leitura interessantíssima,
que se não fosse a volta à rotina de seu trabalho já teria
avançado, e muito em sua história. A hora do almoço é,
particularmente, inviolável. Garfadas mansas o livro ao lado do prato,
vez em quando se recostava a cadeira e saboreava mais a história que
a comida, esquecia do prato e levava o livro perto do rosto. Um romance envolvente
de fato. Não comprara o livro. Havia ganhado de uma senhora que assistira
sua palestra e se encantara com a paixão que ele falava da história
da arte. Há alguns meses atas, ao entrar em seu escritório, viu
o livro envolto de uma fita e um cartão que dizia: para um apaixonado
pelas artes um livro que trata da paixão artística.
Na verdade ele não recordava de quem poderia ser a generosa senhora,
e não deu muita importância a obra, estava no meio de umas avaliações
importantíssimas de peças barrocas recém descobertas e
que não se sabia ao certo o período em foram confeccionadas. Entretanto,
ao acabar de colaborar com tal avaliação, resolveu iniciar a leitura,
já que a muito não tinha tempo de ler e, no citado sábado
passado, permitiu-se iniciar a leitura que o envolveu desde o primeiro capitulo.
O texto trata de um artista plástico que pintava compulsivamente uma
mulher, a mesma mulher, que sem explicação e depois de várias
tentativas de mudar o tema expresso em suas telas ela sempre aparecia, às
vezes em pinceladas em transe do artista. Muito detalhista e envolvente o texto
aborda o clima e o leve desespero do pintor para saber quem era tal mulher.
Ele facilmente se identifica com história e não só pelo
fato de tratar de arte, mas também por sonhos recorrentes com uma personagem
desconhecida. É verdade que a muito não sonhara, mas nem por isso
esquecera.
O restaurante em que estava naquela segunda ele nunca havia estado e só
reparou no requinte de sua decoração quando resolveu fechar o
livro e voltar para o mundo real. O ambiente remetia a algum ponto da Europa
Medieval, acabamento rústico das paredes, iluminação que
se assemelhavam às tochas das tabernas cravadas diagonalmente nas colunas,
os garçons impecavelmente vestidos. O dia avançava e ele tinha
que retomar seus afazeres. Ao levantar os olhos para achar alguém que
lhe recebesse a conta, reparou numa mesa a alguns metros dele uma bolsa feminina
e um livro que lhe parecia familiar, sua surpresa, entretanto, não foi
a suposta coincidência, mas como aquele fato lhe chamou a atenção.
Depois de acertar a conta levantou-se e foi vagarosamente até a mesa
ainda sozinha, olhou para os lados e folheou sutilmente o livro, que de fato
era o mesmo que lia com tanto afinco, para sua surpresa o marcador avisava que
ela parara na mesma página em que ele estava e enquanto ele se refazia
do susto uma voz feminina e suave sussurrou no seu ouvido: "Almas Gêmeas
, um lindo romance que ganhei de uma senhora, eu recomendaria sua leitura..."
. Simpática e encantadora. Ele percebeu quando virou se para se apresentar
a ela e desculpar-se de sua intromissão e neste instante percebeu que
havia algo de familiar nela. Sem conseguir disfarçar seu constrangimento,
tentava sem sucesso balbuciar algumas palavras. Ela, entretanto, sorriu, um
belo e suave sorriso, por instantes ele se esquecera da hora, dos compromissos
e foi arrebatado aos seus antigos sonhos. Era ela sem dúvida! Trocaram
contatos, se conheceram melhor. Verificaram que suas afinidades eram muitas,
e que a recorrência de seus sonhos não eram coincidência.
(17/11/2005)
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