A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Fadas e bruxos

(Azucchero)

Entendo que de forma alguma poderemos discordar da expressão, "a vida é um palco".

Por esse motivo, estou convicto que no meio desta trapalhada que é o nosso palco, devemos fazer o esforço para interpretar bem a nossa personagem.

Experimentem levantarem-se de manhãzinha, mais ou menos como quem vai entrar em cena, deglutirem uns cereais "fresquinhos vindos de Marraquexe" e idealizarem qual o personagem que querem ser durante o dia.

Ontem optei por me representar, má decisão! Começaram logo por dizer que tinha umas olheiras enormes, que não era nada parecido com o Cristiano Ronaldo e se queria representar alguém tinha que saber driblar melhor, principalmente no meio campo. Que já se notava muito a minha "barriguinha" e se queria continuar a ter boa tracção às quatro rodas era melhor fazer jogging.

Convenceram-me! Comecei por comer cereais do alto Tâmega com pequenos pedaços de queijo francês na tentativa de obter um peso razoável para a época do ano, mas logo veio a minha querida mãe dizer que devia era "emborcar" uns valentes chouriços curados em vinha de alho e umas nozes bem saborosas para ver se quebrava o feitiço.

Confesso que nunca tinha pensado nestas coisas de feitiços, e logo desatei a contar a toda a gente o estranho fenómeno que tinha ocorrido nas minhas barbas, sem que alguém se tivessem apercebido.

Ligaram-me dois dias depois. Era um convite para um directo televisivo a passar em horário nobre e sobre a temática "medicinas alternativas".

O Jorge disse logo que isso era "tanga". Que não há nenhuma alternativa que não seja tomar um pequeno-almoço reforçado antes de agarrar na "voiture" e aturar todos aqueles malucos com excesso de CO2 a querer disfarçar o porque do não envio das receitas atempadamente. Argumentava que nem sequer tinha dinheiro para ir ao cinema, que até conhecia alguns que reprovavam na inspecção por não trocarem de pneus antecipadamente e que o mais lógico a fazer era eu reclamar com os videntes.

Não podia deixar a situação em descontrolo total. Telefonei de imediato para "bruxelas" para falar com a madre superior. Infelizmente estava de folga nesse dia e o preço por 15 minutos de exorcismo nem lembrava o diabo.

No dia seguinte, quando cheguei ao escritório, todos queriam saber detalhadamente como tinha sido a minha intervenção junto de sua santidade e se por acaso não tinha visto o Presidente da Assembleia Nacional a distribuir crucifixos pelos mais desprotegidos para melhor se protegerem do sistema.

Para minha segurança nada disse que me pudesse comprometer!

Por outro lado, não poderia de forma alguma abdicar do previamente estabelecido em reunião de condomínio. Não fosse o vizinho de cima dizer que afinal o incenso não tinha servido para nada, que tínhamos perdido o campeonato e até já tinha queimado o cartão de sócio, o Bilhete de Identificação e a camisola.

Entusiasmado com tal atitude, decidi abrir uma garrafa de Whisky e convidar todos os que falavam fluentemente espanhol da Argentina, na esperança que se explicassem fase à história ocorrida nas Malvinas e se por acaso não tinham visto a Angela Merkel posar nua para o Correio da Manhã.

Estava tudo a correr bem até que surge o chefe, dizendo o que está mal, que não é assim que se faz, que deveríamos tomar atenção ao que estávamos a fazer e que, perguntas dessas não se fazem sem uma boa posta à mirandesa espetada no prato com batata a murro e "pomada" a condizer.

Ora, cozinhar era coisa que já não fazia à muito tempo por causa do inchaço no estômago que me provoca uma azia tão grande ao ponto de já não conseguir entrar na sala da Lusomundo só para não vomitar no ecrã de plasma.

Com certeza que estarão a pensar nos malefícios que uma alimentação desregrada poderá proporcionar a quem já não consegue abrir uma lata de atum com os dentes. E pensarão também que, com este modo de vida não chegarei a conhecer o vigésimo governo constitucional.

Para ser concreto até poderia acreditar nisso! O problema é que não tenho paciência para falecer muito cedo, não vá o meu chefe chamar-me ao seu gabinete para me dizer que fugi às responsabilidades e que me vai descontar no final do mês todas as receitas em falta.

Gosto de escolher o meu percurso livremente sem ter que abdicar das sandálias no fim-de-semana. Até já cheguei a falar com alguns beduínos bem vestidos sobre a atracção entre os sexos e como ela se proporciona. O facto, é que alguns deles já regressaram à pátria querida na procura de novas aventuras, que não as do país real.

Não sei se algum de vocês já alguma vez se maquilhou com todo o tipo de anticorpos para enfrentar as feras com que nos deparamos, se já pensaram em mudar de carreira e converterem-se em ninfas de bigode grosso para afastar os maus espíritos que normalmente se encontram na primeira página do tablóide que compramos no quiosque mais acessível, sem pensar nos pobres coitados que falecem só por causa da prática sexual desprotegida.

Por falar em sexo protegido de primeira página. De repente lembrei-me que a culpa de não ter férias há bastante tempo se deve ao meu fraco organismo, que geralmente foge ao compromisso ambiental de consumir carne morta dentro dos prazos estabelecidos por lei, sem prestar uma única justificação.

É claro que, esta circunstância leva qualquer necrófago que se preze de o ser, à total nudez. Que aparentemente até é bem vista pelos restantes personagens que ainda estão de férias, apesar das imensas dificuldades que sentem para manterem o orçamento mais ou menos equilibrado. Mas isto não ocorre somente no domínio PT.

Não vou negar que já pensei comprar uma boneca insuflável com uma enorme boca para melhor ouvir as suas palavras devido ao meu problema de surdez, que tento sempre manter no anonimato, principalmente quando o Santana começa a falar. O que temos que fazer para aumentar a produtividade do departamento. Qual o melhor método a utilizar para podermos dar a volta ao contexto depois de feita merda da grossa. E se não achamos que ele até tem características para ser chefe.

Pessoalmente não me preocupo muito com ele ou até com aquilo que comenta nos corredores da empresa para se auto promover no departamento de distribuição de sanduíche mista à moda da casa.

O Jorge é que não faz a coisa por menos e desata a tecer duras critica durante as reuniões. Refere que a culpa do actual modelo organizativo se deve ao desmazelar de todos. Que deveriam ser proibidas quaisquer visitas ao Shopping durante o horário de expediente. Que daria a própria vida para não ter que exorcizar novamente o departamento, já que da última vez lhe tinha custado os olhos da cara, muito por causa das despesas de representação e devido ao fraco volume de audiências que o programa tinha tido, fundamentalmente nas zonas urbanas.

É o que vos digo! Foi de virem os "olhos ás lágrimas". Já ninguém se entendia com tamanha confusão. E tudo por causa das audiências mal sucedidas.

Cheguei até a pensar em aceitar o pisca-pisca que a Odete me fizera durante toda a reunião.

Ela naquele dia vinha com um visual que nem ao diabo lembraria.

Um top bem minúsculo acentuando de forma exemplar as entradas para uma noite bem passada, com ela de cócoras como quem limpa o soalho, e eu talvez a cantar a portuguesa de outros tempos, na esperança de me vir rapidamente para não ter que sofrer represálias vindas de todos os quadrantes que me fizessem aumentar o inchaço do estômago ao ponto de não conseguir dormir calmamente.

Porem devo confessar que dormir tranquilamente, é coisa que adoro fazer!

  • 414 visitas desde 23/05/2017
últimas crônicas
Copyright © 1999-2017 - A Garganta da Serpente