| Aurora Miranda Leão |
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Artur da Távola, Exemplo e Saudade
(Aurora Miranda Leão)
A partida de Artur da Távola nos deixa mais pobres. Perdemos. Não
apenas um intelectual do mais alto gabarito. O Brasil está órfão
de uma das cabeças mais iluminadas aqui já nascidas. Perdemos
um Homem sensível, inteligência brilhante, um carioca apaixonado
por todas as formas de ser e Pensar... a vida, o humano, a civilidade. Eu, particularmente,
perco um amigo querido, um Mestre que me ensinou a ver todas as coisas da vida
pelo viés da sensibilidade.
Artur da Távola é uma saudade e um exemplo a me nortear os
passos desde a adolescência. De admiradora tímida e acanhada,
virei amiga, descobri um rosário de afinidades e o tempo encarregou-se
de aprimorar nossa sintonia. Lembro, como fora hoje, eu chegando para visitá-lo
no apê de Ipanema, no mesmo endereço da mãe, a sábia
e querida Magdalena Koff, e dizendo a ele da vontade de enveredar pelo Jornalismo
- "... mas quando leio seus textos, mais me convenço de que jamais
escreverei como você. Tenho vontade de desistir..." E ele, tal qual
o "guru" que, brincalhonamente se autodenominava, mudava o curso de
meu pensamento e incentivava: "Não, Aurora, não desista.
Todos nós temos uma fonte dentro. É preciso descobri-la, burilá-la,
e aí você vai descobrir seu próprio estilo. Você é
sensível e gosta de escrever, portanto já tem as ferramentas mais
importantes". Por esse tempo eu devia ter meus 15... Acabei fazendo
mesmo Comunicação e foi dele o mais lindo cumprimento recebido
ao me formar. Enviei ao Mestre o convite da formatura, eu com 21, e ele me respondeu
num cartão comovente: "Aurora, quem merece os Parabéns
somos nós, jornalistas. Quando uma pessoa com sua ética, caráter
e sensibilidade entram para o jornalismo, nós é que ganhamos".
Tamanha honra me fez também ter cada vez maior responsabilidade com meus
escritos e minha atuação.
De uma forma ou outra, Artur/Paulo Alberto sempre sabia dos meus passos - tenho
todos os seus livros, quase todos com dedicatória, cada uma mais tocante.
Fosse nos momentos de alegria ou de tristeza, a palavra confortante dele
soava sempre. Ganhei dele o prefácio para meu primeiro livro de crônicas.
Sinto-me agora na "obrigação" de lançá-lo.
Lembro nossa última troca de afetos: ele me escreveu contando estar
prestes a fazer uma cirurgia. Respondi (sem saber direito qual o verdadeiro
problema) com várias frases positivas, repletas dos ensinamentos da Ciência
Mentalista, esta potente ferramenta para a vida, tão desconhecida quanto
revolucionária. Ao contrário do que muitos poderiam supor - e
como fazem muitos quando falo na Ciência que estuda os Poderes da Mente
-, Mestre Artur, com a sensibilidade/simplicidade/empatia tão peculiares,
me respondeu cheio de ternura e gratidão "por me colocar em suas
orações"...
Pude tão pouco, Mestre Querido, mas foi tudo que pude naquela hora.
Você agora é quem mais ainda me estará iluminando desta
nova realidade que agora habita, por certo de forma singela e sabiamente escrevendo
crônicas e poemas, cercado das melhores energias, espraiando os mais fraternos
afetos e recheado das virtudes das quais foi com maestria um exemplo singular.
Ficam os muitos livros autografados, a lembrança feliz dos encontros
onde a partilha foi sempre afetuosa, o sorriso acolhedor, o carinho revelado
nas horas mais diferentes, a sensibilidade transfigurada em luz, a ternura em
oferta genuína, como sói a um guia de extraordinária força
moral, a força inteligentemente poderosa de quem influencia por não
impor.
Fica de Mestre Artur em mim, para sempre, o olhar sem preconceitos para a tevê,
o respeito à Ópera e ao Teatro, a reverência à Música
Clássica, o olhar atento e incentivador para o nosso Cinema (era fã
e amigo de Zelito Vianna, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor); o apreço
à Cultura Popular e a artistas como Grande Otelo e Dercy Gonçalves
ou os cearenses Lauro Maia e Humberto Teixeira, e os geniais Vinícius,
João Gilberto, Gonzaguinha e Chico Buarque; a admiração
por Fernanda Montenegro, Yara Cortes, Cleyde Yáconis, Rosamaria Murtinho,
Milton Gonçalves, Ruth de Souza, José Wilker, e tantos outros
grandes; fica em mim, sobretudo, a influência notória e assumida
na maneira de escrever - de indisfarçável afinidade-, o amor pelo
Rio de Janeiro e, sobretudo, por Ipanema, o apreciar a Bossa Nova, a procura
constante do Bem, do Belo e do Bom... enfim, fica em mim de ARTUR
DA TÁVOLA, que tanto ainda tinha a nos doar de sua grandeza, carisma,
serenidade e luz, o exemplo de um Homem Digno, intelectual sem impáfia,
observador atento da vida, avesso a modismos, preservador da Memória
histórico-afetivo-cultural do país, inteligência lapidar
e erudição invejável. Fica uma infinita saudade, a certeza
de ter aprendido com ele o melhor que sei de Jornalismo/Poesia/Arte/Amor e Vida
com Dignidade.
Mestre Artur, meu Adeus cheio de Saudade e minhas preces mais amorosas para
que estejas em PAZ, a Paz e Bondade que sempre foram a força motriz de
sua trajetória de filho dedicado, pai amigo e conselheiro, marido-companheiro,
escritor meticuloso, jornalista de gosto refinado, crítico sem criticismo,
amigo de todas as horas, sempre carregado de afeto, sensibilidade, solidariedade
e disponibilidade, um esteta da liberdade e da justiça, um artesão
do Conhecimento como alicerce civilizatório, um Mestre na Arte de
Encantar e tornar ENCANTADO tudo a quanto emprestava seu olhar, sempre melhor
e mais acurado que o da maioria.
Mestre ARTUR, resta o projeto do curta documental em sua Homenagem, uma crônica
audiovisual para reafirmar minha imensa gratidão, meu imortal apreço
e a Admiração indormida, cultivada desde as primeiras leituras,
afinidade revelada nos textos do cronista magistral, a quem o contato e a convivência
só alicerçaram o afeto, a estima e a enorme certeza de que...
HÁ MOMENTOS EM QUE É PRECISO SABER REVERENCIAR. Diante de
certos Artistas, é só o que nos cabe fazer.
- Esta é uma frase do Mestre, um pensamento, dentre tantos que colhi
de sua lavra...
Pois é o que me aparece mais vívido agora, neste momento de profunda
dor e acerba ausência, fluindo com toda a intensidade da estima quase
incomparável que nutro por quem é um dos grandes responsáveis
por minha entrada e permanência no Jornalismo.
Descanse em Paz, Mestre. E, é bem provável, em semana de Dias
das Mães, esteja já na companhia da querida Dona
Magdalena (a quem tive o prazer de conhecer e muito conversar), ladeado
pelo pai e o amado avô André Koff.
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