A Garganta da Serpente
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Para Não Desbotar da Memória das Nossas Novas Gerações
(Aurora Miranda Leão)

Zuzu Angel, filme de Sérgio Rezende em cartaz em todo o país, inscreve-se já não só como um dos melhores filmes do ano mas como um dos mais importantes filmes da Cinematografia Brasileira.

Patrícia Pillar aproveita com maestria a oportunidade de exprimir-se em toda a sua amplitude interpretativa: comove, assusta e promove a adesão total do espectador à causa tão nobre perpetrada por Zuzu, símbolo máximo da dor vivenciada num tempo página infeliz da nossa história...

Se outros méritos não tivesse, só por "revelar" a tantos a barbárie emocional vivida por esta mulher, Sérgio Rezende, sua produção e seuspatrocinadores já mereceriam louvores. Ademais porque, apesar de história tão dolorosa, foi capaz de criar cenas de lancinante beleza - como as de Zuzu-Patrícia esvaindo-se em dor pelos vidros da sala e na banheira, além da expressividade da presença dela ao final do desfile onde surge, Dama Negra, foto do filho desaparecido nas mãos - inscritas agora nos anais do cinema.

Sérgio vai muito além do registro histórico e consegue criar uma atmosfera de silêncios, sustos, tensão subjacente, sem deixar de mostrar a Zuzu refinada, de extremo bom gosto, dedicada aos filhos e vocacionada para a Paz e a Justiça. Através de pequenos detalhes, o cineasta denuncia sua intimidade com o tema e proporciona um espetáculo fílmico de força avassaladora. Escolhe a ordem interrompida para melhor conduzir-nos pela trajetória de Zuzu (o roteiro muito bem armado por Sérgio e Marcos Bernstein é outro trunfo, idem a competente câmara de Kika Cunha). O foco na fruteira de cristal antiga sem fruto algum, na mesa vazia de apartamento simples mas bem decorado, impregna o olhar num misto de simplicidade e afirmação do momento prenhe de indagações. A tomada inicial, belíssima fotografia da baía de Guanabara, e os takes seguintes fundindo o apreensivo rosto de Zuzu saindo do apartamento, o carro na estrada Rio-Minas, ela com antigo gravador a registrar toda a sua agonia - gravação amedrontada mas consciente da importância do registro para a posteridade -, a ida à casa do amigo Chico para deixar a carta decisiva, a cena do "tenente" descendo a enorme escadaria esmaecida e a queda do revólver como ápice, além do final ao som da bela e dilacerante canção de Miltinho e Chico Buarque para a Angélica dos anjinhos pretos, são indícios de um diretor maduro, que sabe o terreno em que pisa, porquê pisa e como pisa. Apaixonado por música, Sérgio entrega a Cristóvão Bastos a trilha, encaixe perfeito, sobretudo na cena do acidente no qual se ouve a lendária Apesar de Você. Chico Buarque, Nosso Artista Soberano, mais uma vez está presente como genial criador e ser político-social dos mais necessários, dignidade invejável. É aquele que, apostando numa causa, consegue adesão imediata tal seu carisma e respeito construído ao longo de anos de uma estrada conseqüente, aguerrida, iluminada, daí o amplo respaldo junto ao imaginário nacional de Justiça e Solidariedade. Como se em uníssono, ecoássemos: "Chico apóia ? Então eu também apóio".

Agora vamos ao elenco, onde todos estão bem: Camilo Bevilácqua protagoniza um preciso tom inicial, fazendo antever o martírio a ser vivido pela estilista, ao lado de um não menos expressivo Antônio Pitanga. Nélson Dantas, Paulo Betti e Ivan Cândido, atores de inegável sensibilidade, em pequenas aparições, mostram o porquê do prestígio alcançado junto à crítica especializada. Alexandre Borges, participação especial como advogado de Zuzu, destaca-se com atuação comovente sobretudo na cena do Tribunal - onde também é marcante a presença de Tião D'Ávila.

Outra geração é representada por Caio Junqueira, magnífico na expressão de dor pela perda do companheiro, amigo leal e querido. Difícil expressar o impacto da cena na qual "Alberto" e "Paulo" são torturados juntos: de uma plasticidade dilacerante os dois pendurados, nus, socos e pontapés no pau-de-arara, esfregão de sal na cara, a violência deplorável vivida por jovens em busca de justiça social e liberdade... Flávio Bauraqui mais uma vez afirma-se uma das gratas revelações deste momento fértil do nosso Cinema. Num personagem de matizes várias, acerta em todos os momentos e é um dos responsáveis pela credibilidade inegável deste filme-denúncia de Sérgio Rezende. A atuação de Aramis Trindade é de longe uma das melhores coisas do filme. O ator pernambucano (magnífico em outros trabalhos bem diversos como no curta Bala Perdida e em A Máquina ), reafirma-se um dos maiores da nossa cena.

Portanto, você que ainda não viu Zuzu, pode ter certeza: se não o fizer, estará sabotando você mesmo por negar-se a ver obra de tamanha relevância sócio-histórico-política para o país e, sobretudo, de força humanitária incomum. Se você já viu, sabe do que estou falando. E se viu e discorda de mim, tudo bem ! Você pode até não gostar de algumas cenas, de um ou outro foco privilegiado pelo diretor, antipatizar alguém do elenco, mas você jamais poderá afirmar estar diante de uma obra menor, de um elenco incompetente, de um diretor insensato ou que não conhece o ofício.

Cá entre nós, Zuzu Angel é Cinema dos Melhores ! Um orgulho para nossa cidadania, um brado de civilidade e uma grata satisfação saber da história de Zuzu enfim à disposição do grande público. Parabéns a Sérgio Rezende e a toda a equipe e um abraço comovido em Hildegard Angel, exemplo estóico de filha, mulher e ser humano, a quem muito se deve a concretização deste Zuzu Angel, libelo humanista pra lembrar aquela que pagou com a vida o preço de buscar respostas para a morte do filho.

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