| Aurora Miranda Leão |
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Um Antídoto para a Bárbarie
(Aurora Miranda Leão)
Chego em casa após um dia de trabalho, reencontro com amigos e atividades
diversas. Ligo a tevê e não encontro lógica no que vejo.
Perplexa, constato a violência absurda daquela segunda-feira, mais um
dia de muita estupidez, agressividade gratuita, descaso com o ser humano, desrespeito
à vida, incongruências de toda ordem a provar o quão estamos
vivendo um tempo sem sanidade, compartilhando um mundo cruel e atitudes cada
vez mais desastradas. Um espaço deteriorado e se deteriorando a cada
segundo, nos mais diferentes lugares, pelos motivos mais banais. A decadência
parece estar em toda parte, contaminando como uma febre cavilosa a infestar
com espantosa rapidez.
Gostaria muito minhas palavras soassem perdidas num deserto onde só imperassem
muita água benta, justiça social, dignidade moral e respeito à
Vida. Mas todos os que me lerem terão a seu lado os jornais, as tevês,
as rádios, a Internet e toda forma de comunicação pra constatar
com absoluta precisão minhas considerações acerca do tema
violência versus insanidade, insanidade gerando atrocidades,
atrocidades vindas de uma sociedade cada vez mais apartada da Arte.
Vejam só a ironia: nesse mesmo dia de tanta estupidez, recebi comovente
homenagem de meus alunos de Teatro. Com presentes, bolos, refrigerantes, flores,
poesias, música, esquetes, alegria, amor no coração e uma
invejável vontade de polvilhar o mundo com Arte, meus jovens alunos de
todas as idades e de todas as vertentes, me prestaram, mais uma vez, homenagem
da qual nem sei se sou merecedora. Quero tocar fundo no coração
de cada um deles pois assim voltei pra casa, marejada pelo afeto espontâneo,
o carinho sincero, a cumplicidade afetiva, a paixão pelo Teatro. A cada
um, tenho uma palavra de carinho e agradecimento a dizer. Cada um plantou em
mim brotos de saudade e muito de estima, apreço, sincronicidade. Tenho
um carinho especial por eles e por cada um meu afeto toca de um jeito. Eles
sabem disso porque sabem da necessidade de sermos muito verdadeiros para fazer
Teatro com competência. Eles sabem: assim como cada ator interpreta de
seu jeito e não há interpretações certas nem
interpretações erradas - cada ator empresta ao personagem
emoções diversas e únicas, geradas a partir das vivências
pessoais e intransferíveis de cada um -, também é diverso
o modo como cada um de nós se relaciona com cada outro: nem melhor
nem pior, apenas diferente porque diferentes somos todos nós. E a
beleza da vida e o frescor da convivência sadia advêm justamente
daí, da convivência dos contrários, do dar as mãos
ao diferente, do co-existir na incompletude, do partilhar cada eu e do contracenar
com egos diferentes, todos bem vindos, todos necessários. É da
convergência saudável dos desiguais e do encontro possível
dos opostos que nasce a beleza da comunhão, a riqueza da busca da irmandade
entre os divergentes. Somos um mundo único, uma embarcação
à deriva ou cujo comando desconhecemos, mas temos cada um uma inteligência
a ser desenvolvida, uma competência a ser descoberta, uma ceia farta de
dispositivos e facções, e um feixe de emoções inusitadas
e complexas a serem percorridos, lapidados, amadurecidos. Sem entender a vida
assim, cheia do encontro de tantas partes contrárias e/ou desiguais,
embarcaremos feio numa canoa furada, sem passado e sem futuro. Do jeito que
vai, a canoa parece enfrentar uma tsunami. Apedreja-se alguém
por vestir uma camisa de um time adversário. Quinze rapazes numa fila
de um estádio em São Paulo avançam sobre um garoto de 15
anos porque este trajava uma camisa de cores contrárias às do
futebol dos 15. Um pai perde um filho a caminho de uma partida, vítima
da bala permitida pela irresponsabilidade de muitos. A intransigência
avança mas há quem ache certo se considerar melhor por viver "no
país do futebol". Eu preferia viver No País da Arte. Eu seria
muito feliz se a televisão pudesse esquecer a incongruência dos
dias atuais sem estar sendo desinformante, e jornais, revistas, rádios
e emissoras abordassem apenas assuntos ligados à vida saudável,
à alimentação adequada, ao número crescente de livros
vendidos, às crianças brincando nas ruas, aos cuidados com a Beleza...
se a televisão só falasse de Arte.
Para deter o avanço da violência, o mundo precisa de mais Arte.
A antítese da bandeira da Violência não é a PAZ e
sim a ARTE. É de ARTE a carência maior da humanidade. A Paz virá
com o fomento da atividade artística. Lembro-me de meu querido Mestre
Aderbal Freire-Filho, com quem tive o prazer de caminhar pelos meandros do Teatro
por muitas e inesquecíveis vezes, repetindo e citando exemplos. Aderbal
dizia: "Reparem que quanto mais cresce a violência no mundo, menos
assistimos a apresentações artísticas em espaços
públicos. Já pararam pra imaginar o quanto pode uma Orquestra
solando Tchaikovski em praça pública?"
Se àquele tempo as palavras de Aderbal me tocaram fundo por revelar como
um açoite a propriedade da afirmação, muito mais me tocam
hoje quando percebo cada vez com maior clareza a urgência da necessidade
de espalharmos ARTE pelos quatro cantos do país, e constato, com a escassez
de Arte em quase toda parte, o avanço brutal e insano da violência.
Quando os governos do mundo perceberem o quanto ganharão em prestígio,
dia-a-dia saudável e anos de vida com o incentivo à proliferação
das manifestações artísticas e o incremento do estudo da
Arte, em todas as suas versões, para pessoas de todas as raças,
credos e idades, o cotidiano das sociedades será outro e outra será
a história que contaremos às novas gerações.
Se você puder parar alguns minutos de seu tempo pra olhar em volta, repare
bem: quantas partidas de futebol temos por semana no Brasil ? Quantas horas
diárias a programação de rádio e televisão
dedica ao futebol, e ao esporte de modo geral ? Quantas academias de culto ao
corpo e cabeleireiros você vê em cada esquina? Em contrapartida,
quantas exibições públicas de cinema temos semanalmente
e em quais cidades do país, todos os dias, há apresentações
artísticas gratuitas de música, dança, teatro, circo, contação
de histórias e recitais poéticos ? Quantas exposições
de Artes Plásticas, Visuais e Fotografia temos por semana, com o acesso
do público amplamente liberado ? Ao mesmo tempo, quantas horas a sua
rádio preferida ou a emissora de tevê mais assistida dedica ao
cinema nacional, à boa música brasileira, aos espetáculos
de dança, teatro, cultura popular, circo e tantos outros ? Quanto tempo
a televisão gasta mostrando casais felizes e filhos ajustados ? Quantas
reportagens exaltam o companheirismo, a troca saudável de idéias,
o cultivo de emoções nobres, a importância da leitura ?
São reflexões simples e as ações expressas até
podem parecer gotinhas d'água em oceanos revoltos. Na verdade, essa é
apenas a impressão aparente. As mudanças de comportamento produzidas
pelo contato do ser humano com a Arte são estudadas em todas as grandes
Universidades do mundo e as transformações sócio-político-culturais
daí advindas estão nos compêndios das grandes bibliotecas
mundiais e sua veracidade e eficiência podem ser atestadas pela História
das Grandes Civilizações. Não à toa, a lembrança
mais forte de Paris, a divina capital francesa, são monumentos à
História, à Beleza, à preservação de um Patrimônio
Artístico e Cultural construído com suor, dores e muita luta.
Não impunemente estudam-se os caminhos da Arte desde os primeiros sinais
de vida no planeta e guarda-se com frescor na memória o nome de virtuoses
como Mozart, Bach, Chopin, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Beethoven, Maurice
Ravel, Van Gogh, John Lennon, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector,
Cacilda Becker, Dias Gomes e tantos outros, em contraposição aos
sempre execráveis Hitler, Stálin, Mussoline, Saddam Hussein, Bin
Laden e terroristas de todas as etnias.
Quando as sociedades e os poderosos do mundo se derem conta de quão sua
vida vai mudar no dia em que uma escola de Teatro possa ser encontrada em cada
quarteirão, em cada esquina ouça-se o som de um violino entoando
uma nota sublime, em todas as praças haja espaço para se colher
flores e encontrar amigos, em cada ponto de ônibus haja colagens de poesias
e cada habitante seja um discípulo preparado para o amor e não
para a guerra, a história da Humanidade poderá ser contada apenas
com Alegria, emoção, gestos e atitudes a imitar. Quando o homem
perceber: ele é muito mais homem tendo coragem de ser ele mesmo, passível
de erros e defeitos mas também de defender grandes causas, e descobrindo
no outro não só os defeitos que em si julga ausentes mas possibilidades
de parceria para a construção de um mundo melhor, onde todos tenham
vez e ninguém seja reconhecido melhor só porque tem mais, as disputas
e combates insanos e despropositais serão vistos com lente de aumento
e em sua devida proporção. Não mais haverá homens
portando armas por assim se julgarem protegidos e assim se considerarem fortes
e capazes de enfrentar o inimigo. Não mais haverá mulheres espancadas,
crianças abandonadas e famílias mutiladas. Quando todos perceberem:
o maior dilema dos humanos é a angústia pela falta de explicação
para o seu "De onde vim, pra onde vou, por que estou?", a ausência
de sintonia com o Desconhecido, e a inexplicável dimensão da TRANScendência,
estarão conscientes de não ser a violência a melhor forma
de bradar contra o Não-Saber, as perguntas sem respostas, o Mistério
Onipresente. Quando os homens se dedicarem a construir celeiros de esperança,
estufas para as emoções nobres, jardins para o cultivo de sentimentos
elevados e ararem o terreno para que floresça ali o mais que humano em
nós, o solo estará fértil para a chegada da Paz. E todos
sentiremos a necessidade de Ela ancorar. E todos vamos nos dar as mãos
e aplacar muitas de nossas angústias pois nosso grito ante o Mistério
não será mais gritado sozinho. Em uníssono, todos pediremos
a PAZ e cantaremos louvores ao Amor, à Amizade, à Solidariedade,
à Justiça Social e à Liberdade de Expressão.Construindo
um espaço de harmonia, de cultivo dos sentimentos nobres, somente a Paz
poderá advir. Não pensaremos nunca em nos armar contra nada
nem ninguém. Nossa arma será nossa Palavra, nossa Palavra será
sempre um SIM à Vida, ao Bom e ao Belo. Expulsemos a violência
de nosso cotidiano extravasando nossos impulsos mais repulsivos e canalizando
nossos instintos negativos para o aprendizado, a transmissão e o cultivo
das atividades artísticas. Dêem-me um punhado de Arte e eu lhes
darei a Paz.
No dia em que todos os homens forem Artistas, aí sim, neste dia, o mundo
será uma grande aventura de Paz, Afeto, Liberdade, Fraternidade e Vida
Feliz, como tanto almejamos todos nós.
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