| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
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Telhado novo
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
Hoje em dia a imagem é tudo. A primeira impressão é que
vale.
Na política a aparência é fundamental, principalmente em
ano de eleições. E nesses casos a calvície, os fios de
cabelos brancos ou um nariz avantajado, tornam-se incômodos no vídeo.
Em dado momento da vida nos defrontamos com o espelho e constatamos o inevitável:
quem não está calvo, está com uma nevada de causar inveja
aos Campos de Cima da Serra. Quem não consegue encarar a realidade, encara
a mudança. E os tabus da cirurgia plástica e do implante são
heroicamente superados.
Recentemente foi noticiado que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu
fez cirurgia para implantar cabelos, num hospital de Recife. Foram 6.710 raízes
implantadas no topo da cabeça. Segundo Zé Dirceu, para esconder
uma cicatriz de 2,5 cm.
No auge das denúncias do mensalão o ex-ministro era o principal
acusado. No final de todo aquele episódio o Zé Dirceu foi cassado
e o PT, símbolo da ética e da transparência, deixou de ser
estilingue para se tornar vidraça. A partir de então, o partido
do presidente Lula também passou a ter telhado de vidro e o Zé
Dirceu o pivô do imbróglio.
O que leva uma personalidade da estatura do ex-ministro em mudar sua estampa?
Vaidade? O Zé Dirceu quer ficar bonito? Ou, simplesmente, ostentar umas
melenas, um topete. Quem sabe, em situações embaraçosas,
afirmar com convicção: vou deitar o cabelo.
Mais de seis mil pés de cabelos é uma lavoura respeitável.
Diria mais, um assentamento bem-sucedido.
Qual o intuito desse novo semblante? Os amigos sabem que por debaixo daquele
teto existe o velho Zé Dirceu, articulador implacável e hábil
negociador. Os inimigos também, só que por outra ótica.
Segundo o cirurgião, daqui a uns três ou quatro meses a lavoura
começará a dar resultados. Estaremos diante de um novo Zé
Dirceu? O ex-ministro estaria, numa derradeira tentativa, escondendo seu telhado
de vidro? Prefiro acreditar no amor-próprio.
O que precisamos no Brasil é de mudança de mentalidade no trato
da máquina pública, coisa que, infelizmente, uma cirurgia de implante,
plástica ou uma tinturinha não resolvem.
Particularmente, enquanto não inventarem uma tesoura que corte, apenas,
os fios de cabelos brancos, estou aderindo ao uso do chapéu, que, nesses
dias escaldantes é uma questão de saúde.
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