| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
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O penhor do Pinto Rosa
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
Certa tarde, de um dia quente desse nosso verão escaldante, entra no
recinto do penhor, um senhor alto, todo banhado em suor. Um gringo magro do
interior de Anta Gorda com uma larga vivência urbana, esperto e conversador.
Dirige-se diretamente ao avaliador de penhores, que estava absorto na leitura
de um informativo do sindicato com notícias sobre as negociações
salariais.
- Boa tarde, moço.
- Boa tarde.
- Aqui dentro tá fresquinho, não imagina como está lá
fora. Chove torrencialmente, olhe como estou molhado. - e sorriu de sua própria
piadinha.
- Águas caindo. - retorquiu o avaliador, mas o vivente não entendeu
o trocadilho.
Queria obter informações sobre o penhor, suas vantagens, desvantagens
e se as jóias estariam seguras no banco. Tinha muito medo de roubo e
não queria amargar a perda de suas jóias que possuíam um
grande valor de estimação, sendo que algumas delas vieram da Itália
quando seus avós migraram para o sul do Brasil.
Após obter as informações necessárias e ser tranqüilizado
acerca de tal operação e de sua segurança, disse que já
era cliente do penhor de uma agência em Porto Alegre, mais precisamente
o posto de Penhor da Praça da Alfândega.
- Então o senhor vai trazer suas jóias de Porto Alegre? O senhor
deseja pagar o resgate?
- Não, eu já estou com elas aqui... eu quero fazer o penhor.
- O senhor vai fazer o penhor hoje?
- Sim.
- Então, vou precisar da sua Carteira de Identidade, do CPF e de um comprovante
de residência.
O seu Valphrido Pinto Rosa passou a documentação para o avaliador.
Para entregar as jóias a serem avaliadas, pediu licença, levantou-se,
virou um pouco de lado, de frente para a parede.
- Tem que ser meio "escondidito". - comentou o senhor Pinto Rosa,
que naquele momento estava num vermelhão só.
Abriu o zíper da calça, todo desajeitado e atrapalhado, enfiou
a mão com uma certa demora, talvez pelo difícil acesso. Antes
mesmo de o avaliador, meio assustado, dizer que "pinto" a Caixa ainda
não aceitava como garantia para fins de empréstimo, mesmo que
dito cujo fosse rosa, o cidadão, ali em frente, retirou de dentro de
sua calça um pacote envolto em papel branco e amarrado com atilhos.
- Quero penhorar estas jóias. E tem aí um baita diamante rosa
de um quilate. - falou como se tivesse lido os pensamentos do avaliador.
- Ahãn... ahãn... - grunhiu o avaliador duvidando do gringo.
Largou o pacote em cima da mesa e mais que depressa fechou o zíper e
estatelou-se na cadeira. Agora o senhor Pinto Rosa estava branco como uma folha
de papel. O suor corria-lhe pela testa, embora o ar condicionado do ambiente
estivesse funcionando normalmente. Nesses tempos de dólares em cuecas,
que mal teria um valioso diamante rosa na cueca do seu Valphrido Pinto Rosa?
O avaliador, com o constrangimento devido a tal situação ser inusitada
num posto de penhor, solicitou, com a maior delicadeza possível.
- O senhor desfaça o pacote, por gentileza.
Provavelmente com um pouco de receio em tocar no invólucro branco e suado
das jóias, que certamente ladrão nenhum jamais encontraria.
Com uma análise rápida e visual, o lote, de seis anéis,
um deles com o tal diamante rosa, três colares e quatro pulseiras, foi
considerado como jóias de ouro 18 quilates e em bom estado de conservação.
Pularam da mesa para a balança e da balança para o envelope com
o lacre da Caixa, o mais rápido possível. Total da avaliação
R$ 1.860,00.
E o seu Valphrido Pinto Rosa saiu do penhor cheio dos pilas, diga-se de passagem,
com toda a grana na cueca.
(Classificada no 14º Concurso Histórias do Trabalho 2007)
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