| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
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A canetinha rosa do guasca
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos ocorreu entre os
anos de 1835 e 1845 por essas bandas do sul do Brasil. Naquela década
sangrenta os gaúchos se rebelaram contra o Império. Num audacioso
20 de setembro deram início a revolução, num 11 de setembro
proclamaram a República Rio-grandense e num mormacento fevereiro, 10
anos após, assinaram a paz de Ponche Verde nas planuras de Dom Pedrito.
Então, em todos os meses de setembro os gaúchos resgatam lembranças
da epopéia farroupilha. Heróis farrapos como Bento, Netto, Garibaldi,
Anita, Canabarro e tantos outros são reverenciados em músicas
e versos nos galpões, nos CTG's, nas escolas, enfim, nos rincões
do Rio Grande por onde sopra o Minuano ou onde estiver um gaúcho em qualquer
parte dos quatro cantos do mundo.
Os jornais estampam reportagens sobre os revolucionários de 35 e no dia
20 ocorre o desfile da gauchada orgulhosa de seus antepassados que são
lembrados como os centauros dos pampas. Os garbosos cavalos batem cascos e cagam
pelas avenidas afora. Que mal faz o cheirinho de uma verdejante bosta diante
da importância da manifestação tradicionalista?
Nas repartições públicas, bancos, lojas e nas entidades
civis os funcionários trabalham pilchados. Os novos centauros dos gabinetes
e escritórios ostentam a campeira indumentária. Alguns, ainda
mais orgulhosos, exibem certificados de sua farrapa descendência. Até
o "tchê" é precedido de um carregado "mas bah!"
para autenticar a momentânea, mas acintosa grossura guasca-pampeana.
Dirijo-me a uma instituição bancária para assinar um contrato
de empréstimo pessoal. O funcionário, alegre e muito gentil, começa
o atendimento. Estava trajado a rigor para a semana festiva em questão.
Calçava botas com chilenas prateadas, usava uma bombacha preta, uma camisa
branca e um lenço vermelho ao pescoço que identificava sua tradição
de maragato ou um fanatismo gaudério pelo Internacional e uma guaiaca
comprada lá no Uruguai. Um chapéu às costas, preso pelo
barbicacho, era um detalhe especial.
- Buenas tardes! - cumprimentou-me com um genuíno jeitão missioneiro.
- Buenas... - respondi com um jeitão, também missioneiro, de quem
nasceu em Santiago do Boqueirão.
Casualidade ou não, mas o gaudério ali em minha frente, possuía
um volumoso bigode de causar inveja ao Paixão Cortes.
Antes de assinar o contrato, solicitei ao escriturário guasca para mostrar-me
a data do vencimento. O gaúcho com aquele baita lenço e escondido
atrás do bigodão, saca a sua poderosa adaga farrapa: uma caneta.
Ou melhor, um salientador, e faz uma marca fosforescente rosa no meu contrato,
indicando a data.
A mim pareceu meio esquisito e contraditório. Um "gaúcho-dos-quatro-costados",
falquejado no lombo dos baguais, com uma canetinha rosa-shocking para salientar
contratos.
Não pude deixar de brincar com o vivente.
- Tchê louco! De bombacha... mas com canetinha rosa. - deixei a frase
no ar.
Tasquei minha assinatura no papel enquanto o bombachudo rodopiava a canetinha
rosa entre os dedos, pensativo.
(Crônica classificada no 13º História do Trabalho
2006)
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