| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
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As cotas e o conto de Maupassant
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
O debate sobre cotas sociais e raciais nas universidades tem suscitado acaloradas
discussões. Acirrando os ânimos acerca do racismo.
Sou favorável as cotas sociais. A universidade pública tem que
contribuir com a inclusão social. Cotas pelo critério econômico,
ou seja, cotas para os pobres seria um avanço considerável para
uma verdadeira universidade pública e transformadora.
No entanto, com relação às cotas raciais tenho algumas
dúvidas e incertezas. Sempre que ouço algum comentário
nesse sentido, vem a lembrança do conto No campo de Guy de Maupassant.
Nesse conto, duas famílias pobres, os Tuvaches e os Vallins são
vizinhos e recebem várias visitas de um casal bem-sucedido. Após
alguns encontros o casal dirige-se aos Tuvaches e pede em adoção
um dos filhos. Em troca daria educação para o garoto que seria
seu herdeiro e uma pensão mensal para melhoria da condição
de vida dos demais. Eles não viveriam mais na miséria. A mãe
Tuvaches fica furiosa. Diz que jamais venderia seu filho. Aquilo era uma abominação.
Uma afronta. E expulsou o casal de sua casa.
Na outra casa, os Vallins recebem o casal e acham a proposta interessante. E
aceitam que um de seus filhos seja adotado. O filho não perderia seus
vínculos familiares e, ainda, faria algumas visitas e eles teriam uma
melhor condição de vida.
A outra mãe dizia de porta em porta que só os desnaturados vendiam
seus filhos. Um horror. E isso se repetiu por anos e anos. As grosserias eram
vociferadas junto a porta para que a família dos Vallins ouvisse.
Numa certa manhã uma carruagem estacou junto às duas choupanas.
Desceu um jovem impecavelmente vestido e bem educado e foi ao encontro dos pais.
Junto a porta de sua casa o rapaz, que foi negado para adoção,
vê a chegada do vizinho e cobra de seus pais. "Aí está
o que eu seria agora".
Não perdoou seus pais e preferiu fazer a vida em outro lugar. À
noite abandonou sua família e foi embora.
O que tem a ver as cotas raciais com o conto de Maupassant?
Supondo que tenhamos duas famílias pobres: uma de negros e outra de brancos.
Dois garotos convivem a infância e a adolescência conjuntamente.
Um de cada família. Posteriormente, apenas um deles ingressa na universidade
pelo critério das cotas raciais. Como ficaria a cabeça do rapaz
pobre ao ver o vizinho universitário e ele sem a mesma oportunidade?
O conto de Maupassant nos coloca em introspecção e as cotas raciais
em reflexão.
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