| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
  |
O coma
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
Por vezes a vida imita a arte. No filme alemão de 2003 Adeus, Lenin!
a personagem entra no coma na Alemanha Oriental e desperta, após a queda
do Muro de Berlim, numa sociedade capitalista com a Alemanha reunificada.
Recentemente, na Polônia, um ferroviário sexagenário desperta
após longos 19 anos. Jan Grzebski comentou que antes do coma só
havia chá, vinagre e mostardas nas lojas e a carne era racionada. Hoje,
a vida estava mais bonita e colorida.
Esse inusitado acontecimento nos proporciona algumas divagações.
Imaginemos que um senador, pelas fortes emoções de uma navalha
no pescoço, entrasse no coma por esses dias e despertasse em 2026. A
filha, uma aventura extraconjugal, seria miss Brasil e a sua mãe, uma
formosa ex-jornalista, resolvera plantar batatas e criar papagaios em uma mansão
no Lago Sul. Ainda, o senador acordaria de seu profundo sono com uma dívida
de milhões de reais por conta de uma ação judicial. Ao
despertar, o senador não teria motivos para sorrir e achar a vida bonita
e colorida como o polonês.
Ou então, quem sabe, um ex-deputado, réu confesso, que havia embolsado
milhões de dólares em uma tramóia, despertaria do coma
e veria que seus familiares torraram toda grana e ele estava na mais absoluta
miséria. A maior decepção seria com o filho que se tornara
um inoxidável locutor de uma rádio AM no interior de Minas Gerais.
No futebol também teríamos uma história singular. Um gremista
da Alma Castelhana entra no coma após a vitória do Grêmio
contra o Santos. Uma multidão faz peregrinação pelo hospital
onde está internado o fanático torcedor. Preces e orações,
mas nada adianta. O torcedor permanece 19 anos no mais absoluto imobilismo e
silêncio. Quando acorda, ainda vestido com a camiseta do Tcheco, é
informado que em 2007 o seu amado Grêmio havia sido campeão da
Copa Libertadores e campeão do mundo em 2008. Mas não seria informado
que seu clube estava jogando pelo quarto ano consecutivo a segunda divisão
do campeonato gaúcho. O futebol estava em decadência e o basebol
era a nova paixão dos brasileiros. O Internacional ainda estaria na primeira
divisão, mas o Gauchão era disputado num octogonal com
dois times da várzea de Rivera. Seria muito cruel com um torcedor da
Alma Castelhana, reconheço. Uma coisa lamentável. Mas haveria
uma baita comemoração. Inclusive, um colorado remido ficaria comovido
com tal situação.
Enfim, o Brasil seria governado pelo presidente Chaves, bisneto de um obscuro
vice-presidente, que naqueles dias havia prorrogado a CPMF por mais quatro anos
e cancelado a concessão de nossos craques de basebol para jogar nos EUA.
308 visitas desde 19/06/2007
|