| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
  |
O ex-gremista
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
Lindolphinho, até os dez, onze anos, era um fanático torcedor
do Grêmio. Tinha uniforme completo e era fã do Jardel. Qualquer
objeto azul que ganhasse era motivo para cantar o hino tricolor.
- Até a pé nós iremos. - cantava o guri, corria e pulava
pela casa. Tudo era motivo de festa.
O garoto azucrinava a vida do pai, um fanático colorado que se vangloriava
de ter assistido a decisão de 75 das cadeiras do Gigante da Beira-Rio.
Testemunha ocular do iluminado gol de Figueroa.
Inexplicavelmente, em dado momento de sua vida, passou a torcer freneticamente
pelo Internacional. O motivo ninguém soube até hoje. Mas o fato
é que Lindolphinho virou colorado. A mãe, gremista, não
entendeu, o pai sorria e incentivava o filho. Comprou o uniforme e conseguiu
a camiseta do Fabiano, herói do Gre-Nal dos 5 x 2. No primeiro mês,
como colorado, passava as tardes rondando os treinos à cata de autógrafos
dos jogadores. Gastou toda sua mesada na loja do Jorge Andrade.
Seus amigos não perdoavam. Tanto os colorados quanto os gremistas eram
inclementes na crítica. Ele não era colorado e, sim, um ex-gremista.
- Ex-gremista!!! - zombavam colorados e gremistas.
- Vira-casaca!!! - xingavam outros mais indignados.
A Vó Benta, uma octogenária e ex-militante do partidão,
chamava o guri de melancia. - Ele é vermelhinho por dentro. - completava.
Dona Benta sorria com as peripécias de Lindolphinho, que corria pela
casa adentro com uma bandeira vermelha cantando "Glória do desporto
nacional". A velha tentou ensinar para o neto a música da Internacional
Socialista, mas o garoto não deu a mínima, mesmo que ela afirmasse,
peremptoriamente, que Stalin batia um bolão e era um centroavante matador.
- O vermelho desse pirralho é fajuto. E, além do mais, não
vejo graça nenhuma em futebol. - comentou certa vez.
Mas Lindolphinho não se incomodava com a desaprovação dos
amigos e as rabugices da avó. Era de boa paz e um desportista. Era um
assíduo espectador do Esporte Espetacular. Gostava de vários esportes,
principalmente futebol, mas tinha uma fascinação pela esgrima.
Vivia fazendo o "z" do Zorro nas paredes da casa com um cabo de vassoura.
O pai percebeu o talento do filho, matriculou o garoto em uma academia com aulas
duas vezes por semana. O guri se tornou um aplicado e obstinado praticante de
esgrima.
Oito anos após tornar-se um colorado, ou ex-gremista, como afirmavam
seus amigos, Lindolphinho conquistou o título estadual da sua categoria.
A Vó dizia que o guri era espada. O pai segurava o troféu como
se ele fosse o vencedor. Para orgulho da família, Lindolphinho tornou-se
o melhor esgrimista colorado do estado.
393 visitas desde 3/03/2007
|