| Athos Ronaldo Miralha da Cunha |
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Somos todos marxistas
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
A queda do muro de Berlim em 89 foi uma fratura exposta na ideologia, vieram
à tona todas as contradições do socialismo real do leste
europeu.
No entanto, os ideais de uma esquerda democrática ainda sobrevivem. Com
a vitória de Lula em 2002 reavivou uma ponta de esperança de um
governo orientado pelas políticas de uma esquerda moderna. Sem os vícios
autoritários e burocráticos de outros governos ditos populares.
Mas o governo liderado por Lula é de coalizão e afirmar que é
de esquerda seria uma heresia.
"Somos todos marxistas" foi a frase cunhada pelo ex-ministro Antonio
Delfim Netto para ilustrar a carência de grandes referências ideológicas.
Possivelmente, fundamentada nos acordos políticos das eleições
passadas. Lula de braços erguidos com Roseana Sarney, Ideli Salvati com
o 11 de Esperidião Amim na lapela ou, quem sabe, o fato de um histórico
marxista do gabarito de Roberto Freire ter apoiado Geraldo Alckmin para presidente
tenha influenciado o senhor Delfim.
O filme Zuzu Angel retrata um pouco de nossa recente história de um Brasil
governado por ditadores. O desespero de uma mãe em busca do filho desaparecido.
E que foi torturado e morto pelos braços da repressão.
Mas, afinal, por que lutaram homens e mulheres contra os opressores na década
de 70? Onde estavam os marxistas senão na clandestinidade ou banidos
do país?
São tantos os sonhos desfeitos e a esperança desacreditada que
a frase de Delfim Netto soa debochada e simplista. Um desprezo com a memória
dos que sucumbiram nos cárceres. Um descaso com aqueles que ainda sofrem
pelas seqüelas da tortura.
Aliás, por onde andava o senhor ex-ministro quando o filho de Zuzu Angel
desapareceu?
Quantos revolucionários marxistas lutaram e perderam a vida contra a
tirania dos generais ditadores. Dava-se a vida pela ideologia. O mundo era polarizado
por uma guerra-fria.
E o que temos hoje: uma conclusão simplória. Quem reviu suas posições?
Quem são os incoerentes? Perguntem as mães que ainda choram a
ausência dos filhos.
Resta-nos saber em nome de quem fala Delfim Netto. Carlos Lamarca ou Roberto
Campos?
Parodiando Tabajara Ruas, Antonio Delfim Netto perde sua alma ao afirmar "somos
todos marxistas". Sendo o senhor Delfim citado como provável ministro
de Lula poderia ter afirmado aos marxistas "vocês vão ter
que me engolir" seria menos criativo, mas seria mais honesto e espirituoso.
Definitivamente, somos todos marxistas.
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