A Garganta da Serpente
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Chuta desgraçado!
(Athos Ronaldo Miralha da Cunha)

O escaldante dezembro de 2006 será inesquecível para a nação colorada. A ansiedade começou na madrugada do dia 17 e terminou após o encerramento do confronto com a memorável vitória do Internacional.

Um amigo gremista, anticolorado de carteirinha, assistiu a Batalha dos Aflitos umas trezentas vezes durante a semana. Dizia que estava preparando o espírito para a decisão de Yokohama.

Esse amigo tem uma filha adolescente fanática pelo Inter. Um filho em idade pré-escolar e esposa, gremistas. A esposa é tão desinformada sobre futebol que, para ela, o Danrlei ainda é o guarda-metas do Grêmio.

Domingo pela manhã, pai e filha diante da televisão.

O secador manteve-se numa atitude neutra, em respeito à torcedora que sofria a seu lado a cada ataque do Barcelona. A filha de joelhos, na sala, rogava pragas para o Ronaldinho. Na lesão do Fernandão fazia mímicas com as mãos como se estivesse massageando as panturrilhas do craque. O semblante da menina era de sofrimento.

Quando Iarley avançou e passou a bola para o Gabiru, esse amigo gritou: "Chuta desgraçado!". Não foi bem a palavra desgraçado que ele exclamou, mas tudo bem. Não se conteve e festejou o gol da vitória do Inter. E para se acalmar ainda dividiu umas doses de tequila com a garota.

Emocionado contou-me essa estória. "A felicidade de minha filha estava em jogo e ela sofreu em demasia durante a partida. Eu queria vê-la feliz, saltitante pela Avenida Presidente Vargas. O sorriso dela vale muito mais que a minha aversão pelo colorado".

Havia um gremista feliz com a vitória do Internacional. Chamaríamos isso de "A dialética do torcedor".

Sou um cara de sorte, particularmente, não tenho esse problema. Torcemos todos pelo Clube do Povo. Uma tradição maragata refletida na paixão pelo futebol. De pai para filho desde 1909.

Na política, sim, meus filhos rejeitaram, peremptoriamente, meus candidatos. Uma ojeriza compreensível diante de tamanha onda de escândalos e corrupção que assolam o país. Até eu ando meio desenxabido.

No entanto, essas divergências não causam bate-boas, não há motivos para debates acalorados, pois há muito tempo que a política não nos proporciona saudáveis emoções. Há tempos que nossas bandeiras estão enroladas atrás do armário.

Mas no futebol há uma convergência de ideais. Estávamos todos embandeirados e fomos vitoriosos. "We are the champions".

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