A Garganta da Serpente
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Mãe de hoje...
(Artur da Távola)

Ao aproximar-se o Dia das Mães vem à minha mente aquela mãe que deu à luz em plena fuga, o bebê ficou dois dias sem alimentar-se mas resistiu bravamente, recebeu o nome de Kosovo. Gostaria que esta mensagem chegasse não só àquela mãe mas a todas as outras que enfrentam a dura guerra protegendo, às vezes com a própria vida, seus filhos.

O que pensam estas mães? Qual o mundo que verá seu filho homem? O da bomba? O da guerra biológica ou atômica? O do controle remoto? O do clone humano? O da guerra interplanetária? Ou será o da paz? Das pessoas redescobrindo o simples, a flor, a comunidade, a oração sincera, Vivaldi, mãos dadas para brincar?

A mãe é sempre a favor. Sua tarefa é bíblica. Levar e conduzir vidas sem o leme de definições, apenas com o instinto maravilhoso que a faz Deusa da Intuição.

É tudo muito complicado. Se fizer o filho crescer amando a vida e ele for para a guerra? E se lhe ensinar a ternura e ele tiver que aprender karatê para evitar assaltos? E se buscar dar-lhe amor e ele sair pelo mundo esquecido de você?

Mãe refugiada, mãe pobre, mãe empregada, mãe operária, mãe professora, mãe de classe média, mãe rica: a sua tarefa é o desafio de um mundo novo, para o qual terão de preparar os homens que talvez nem precisem e se preparem sozinhos, pois cada criança que nasce já vem ao mundo com os germens do futuro, tanto quanto os do passado da espécie.

Tudo é alucinante mas a tarefa é a mesma. Antes era a peste, a floresta, a cobra, a paralisia infantil, a apendicite, a sífilis, os maridos chamados de senhor, os silêncios, os pecados, as bofetadas da humilhação, a subserviência, a dependência. Acabou? Não, onde havia sífilis, hoje há AIDS, onde havia as batalhas, hoje há guerras. Mudam as ameaças, tornam-se mais terríveis, mas cada criança é o milagre e cada uma é a portadora da esperança.

Mesmo com tantas tristezas, transportando-me mentalmente até a Iugoslávia, um pouco "mãe" de tantas crianças desamparadas, órfãs, sentindo a dor de cada uma delas, gostaria de parabenizá-las pelo seu dia. Sei que não é fácil. Quem supõe que educar é simples; que gerar é apenas biológico; que renunciar é fácil; que dar de si é leve; que ter filhos é curtição... nega a essência da vida.

(1999)
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