A Garganta da Serpente
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Artur da Távola saiba mais sobre o autor

Saudades do que não posso mais
(Artur da Távola)

Saudade do tempo em que era possível tostar-se ao sol sem medo de câncer de pele e de quando eu nem sabia o que era próstata. Saudade do "sonho" das padarias antigas, gorduroso e doce, além de pastéis, empadas, lingüiças, paio, papo de anjo e de, acima de tudo, arroz com dois ovos estrelados que a gente discutia se era estrelado, estralado ou estalado. Como saudade é a hoje proibida (para mim) goiabada Vera, de Mimoso do Sul, delícia suprema e também os "colesterólicos": cachorro quente, bife de botequim sem apara, rabada com polenta, muita batata frita, beber leite condensado pelo furo da lata e a grande saudade de meu paladar, a qual com reverência, escrevo em maiúsculas: TORRESMO!

Saudade de horas perdidas a conversar num bar e de dançar de "rosto colado" nos bailes do Fluminense. Saudade de poder falar sem muito pensar, sendo apenas ousado e criativo. Saudade de adormecer ouvindo, autorizado, as conversas dos adultos.

Saudade da perturbação diante da atração irresistível, da timidez ante grandes admirações e das inibições silenciosas a pulsar tonteiras no fundo de meus primeiros discursos. Saudade de minha generosa mas ingênua concepção de política e das certezas "ideológicas" que a realidade soube dissipar.

Saudade de conversar com Anísio Teixeira, Hermes Lima, Marcial Dias Pequeno, Samuel Wainer, Álvaro Moreyra, José Carlos de Oliveira, Eduardo Mascarenhas, Corélio Moreira Leite, Roniquito Chevalier, Eurico Amado, Marcus Alencar, João Rath, Tite de Lemos, minha mãe, Newton Mendonça, Luís Reis, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca que está vivo mas foge dos amigos, Dra. Nise da Silveira lúcida e linda aos noventa anos a quem a lida e a vida não mais me permitiram visitar e venerar, Cyro Kurtz e Carlos Sepulveda que "esfriaram" comigo sei lá por que, minha tia Alice e o amigo Marcelo Garcia hoje mergulhados na profundeza de suas mentes liberadas da memória sincrônica.

Saudade de um sentimento do verão só possível na mocidade; e de uma vontade de ser, intuitiva e antecipatória para a qual parti desde rapaz, com decisão e coragem e até aqui tenho lutado para conseguir, feliz com o embate que hoje sei ser interminável.

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