A Garganta da Serpente
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Artur da Távola saiba mais sobre o autor

Lembrando Ataulfo Alves
(Artur da Távola)

2 de maio - ontem - marcaria os 99 anos de Ataulfo Alves. Nos quase quarenta de seu falecimento, o público foi sendo posto à distância da obra notável do compositor, devido à inexistência de programação eclética e variada em nossas emissoras de rádio em geral. Por outro lado, obras como "Leva meu Samba", "Laranja Madura", "Pois É", "Sei que é Covardia", "Atire a Primeira Pedra", "Mulata Assanhada", "Meus Tempos de Criança" e desde sempre o clássico "Amélia" transformaram-se em clássicos de nossa MPB.

Como terá sido possível - e foi - emergir através do talento em meios que, então, quase só deferiam prestígio e notoriedade aos brancos, como o rádio, o disco e o show? Estudando-se a vida de Ataulfo, ressalta impressionante a capacidade de invenção e a criatividade daquele menino de paupérrima origem, vindo para o Rio com 17 anos, sem qualquer estudo ou chances de subir na vida, e com lances de criatividade, aplicação, sensibilidade inata mais o talento elaborado de autodidata. E Ataulfo consegue recuperar através da música popular o acento de tristeza ancestral, milenar, da sensibilidade africana aplicada ou metamorfoseada nas letras e melodias oriundas de um tipo de estesia típico dos anos 30, 40 e 50, no Rio de Janeiro.

A sua formação era a do pai, violeiro e cantador. A influência mais antiga, a da infância, dotava-o de um universo estético cultural peculiar: o interior de Minas Gerais. A propósito desta, o próprio Ataulfo dizia: "Eu acho que guardei na memória, sem saber, muita toada da roça, e isso tem influência no meu samba; é por isso que ele é assim triste..."

Havia, ainda, no fundo do seu ser, a sensibilidade milenar da raça negra. De que nobrezas africanas proviria? De que tristezas e dores ecoadas na noite dos tempos teria surgido um canto assim, carregado de lamentos, embora encapado de alegria?

"[...] Foi de repente. Senti alguma coisa dentro de mim que me mandava fazer música. Veio a primeira, depois não parei mais. Se pudesse faria pelo menos umas dez músicas por dia. O samba passou a ser a minha vida."

Salve, Mestre Ataulfo!

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