A Garganta da Serpente
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Perdão, criança!
(Artur da Távola)

Perdão, criança, pelo que uma sociedade inteira faz com você!

Herdeira de tempos de ambição e loucura, você é a vítima de todos os desvarios decorrentes do mito do progresso material.

As sociedades enlouqueceram na corrida pelo desenvolvimento econômico e, em seu nome, mataram, corromperam, depredaram, desflorestaram, incendiaram, assassinaram, direta ou indiretamente, pessoas, árvores, animais.

A assistência oficial para os gastos com o desenvolvimento dos países ligados às Nações Unidas é irrisória ante os gastos militares mundiais. O poder ofensivo instalado tem potência suficiente para muitas destruições sucessivas do globo terrestre. Um sofisticado artefato de guerra, apenas um, equivale à construção de milhares de salas de aula. Perdão, criança!

No Brasil, são milhões de menores carentes e a terceira maior população favelada do mundo, atrás apenas da Índia e China - dados do livro Planeta Favela (Mike Davis), publicado inicialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU). Perdão, criança!

Perdão pelo mundo de violência que a atinge diretamente. Perdão pelo desamor que a vitima.

Perdão pela estupidez, pelo barulho, pelo consumismo, pela desumanização, pela neurose e desesperança que lhe estamos legando.

Perdão por não sabermos integrar justiça social com liberdade; progresso econômico com co-participação; prazer com trabalho; educação com obrigação.

Perdão por ensinarmos a estudar para vencer, ao invés de estudar para crescer.

Perdão, criança, por tudo o que amanhã - se viva for - você terá que remover de sujeira e doença, para construir na terra um espaço de vida, trabalho, respeito, igualdade e alegria.

Porque o saldo do século do progresso é muito mais de derrotas que de vitórias.

Perdão, criança!

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