A Garganta da Serpente
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O que deixou de ser criado
(Artur da Távola)

O que estou a fazer com as minhas partes internas que ficaram paradas, pergunto-me. O que está você a fazer com as suas? Pergunte-me o que faço para renovar o que há de antigo em mim? E você?

Somos como um montão de anos velhos, acumulados. Vivemos a repetir o que já sabemos e experimentamos. Também repetimos sentimentos, opiniões, idéias, convicções. Somos a interminável repetição, com raras aberturas reais e verdadeiras para o novo. Somos mais memória que aventura. Mais eco do que descoberta. Somos papel carbono, xérox existencial, copiadores automáticos de experiências vividas. O ser humano precisa repetir, porque não está preparado para o novo de cada momento, para o fluir do Todo na direção da transformação permanente: é uma unidade estática e acumuladora num Cosmos mutante e em permanente transformação.

Aceitar a mudança e a transformação é ameaçar tudo o que o homem adquiriu e guarda com avareza, para tentar explicar a realidade e a vida. Sim, somos viciados em nossas próprias crenças, dependentes das próprias verdades e/ou convicções! E, como ocorre em todas as dependências, precisamos repetir essas verdades para não cairmos no pânico da dúvida, na mutação sentida como ameaça. Uma pessoa diz, com orgulho, que há 40 anos torce por um único time. Fico a pensar no que perdeu de vida, alegria e descoberta nesse tempo todo, de oportunidade de apreciar a qualidade dos demais, as virtudes dos antagonistas, o estudo dos adversários. Quantas outras vitórias deixou de fazer também suas, quantas alegrias perdeu.

A rigor, nem sempre sabemos o que fazer para renovar o que há de antigo em nós. Não me refiro ao que há de permanente, pois o ser humano é feito de permanências e provisoriedades. As permanências devem ficar. Mas as provisoriedades, que se tornaram antigas, precisam ser revistas, postas em debate e arejamento.

Criar é manter a vida viva. É ganhar da morte.

Morte é tudo o que deixou de ser criado.

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