A Garganta da Serpente
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Araras em quaresma
(Artur da Távola)

Uns dias em Araras (Município de Petrópolis. RJ)

A natureza prepara o outono. Ainda há verão, porém, por vir. O verão é psicótico! Tormentos, raios, calores brutais. Desconfio que verão só foi bom ao tempo de garoto e de rapaz estudante de faculdade: férias, amor para dar, nada de "trágicos deveres" como diz\ia o poeta Cruz e Souza ("A vida presa a trágicos deveres").

Depois dos 'trágicos deveres' e do terno e gravata, sem praia de tarde e tempo para vadiar, o verão torna-se a cada ano mais insuportável. O tal aquecimento da calota polar. Até o sol que é vida, vira vilão: dá câncer de pele. O verão é um treino anual do apocalipse. Como treino é treino; e jogo é jogo... a gente cá fica esperando que em matéria de apocalipse e de camada de ozônio.o dia do jogo final não chegue tão cedo. O verão é uma estação que precisa de psicanalista. Como os Governantes. Hoje, 22 países já possuem armamentos atômicos.

Em Araras, estão discretos e deslumbrantes meus três pés de Manacá, que já "vagalumearam" com o milagre de flores de duas cores, roxo e branco no mesmo arbusto, fenômeno inexplicável para nós poetas e talvez fácil de ser resolvido por botânicos. E flores de cheiro suave como o de nuca da mulher amada. Também as reverberam sibipirunas, em seu patriotismo do verde e amarelo. Também as Ipoméias (ou "beijo de frade". Não é genial o nome?), Hibiscos e algumas rosas. E elegante e exibido: ao abracadabrante beleza do Manacá da Serra, em plena floração

Imperatrizes da serra, as quaresmeiras esplendem seus lilás pelo verde generoso. Lilás ou roxo? Tanto faz. Roxo e lilás são primos incestuosos. E lindos. Antigamente, via-se nas floristas uma flor roxa por nome 'saudade'. Nunca a esqueci. Sumiu. Como não sumiram minhas lembranças da infância, quando minha mãe ao levar-me em visita aos túmulos da filha e de meu pai, dizia: "- Era a flor preferida de seu pai."

O lilás é introvertido, modesto, mas nítido. Induz a reflexões serenas sobre a vida (enquanto só é lilás) ou sobre a morte (quando é roxo). Enfim, é uma cor de paz e filosófica, a pintar a natureza deslumbrante deste Brasil arbóreo e floral antes que a especulação o esculache ainda mais.

E por falar em roxo, a Ipoméia, que serpenteia como mato por cercas humildes não sabe quão linda é. Vive a se esconder. Como certas mulheres lindas e tímidas, de tanto serem olhadas.

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