A Garganta da Serpente
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A sapoti
(Artur da Távola)

Por mãos de meu amigo Reginaldo Vasconcelos (il Maschio del Rio Pacoti), excelente escritor cearense, chega-me uma caixa misteriosa, embrulho amassado, desses típicos feitos por homem. Abro-a. Deslumbramento. Uma caixa repleta de (vou dizer sílaba a sílaba, a salivar. Leiam bem devagarinho): SA----PO---TI ! E do Ceará, Fortaleza, não sei se das encostas dos altos e belos verdes de São Benedito, que é santo de cor, abençoado, se de perto da Praia de Sabiguaba, das margens do Rio Cocó, a fluir silencioso por dentro da Capital ou dos longes de Ibiapina. Sim: sem méritos para tal, eu ganhara uma caixa de SA---PO---TI !

Desde a infância este não tão conspícuo senhor de quase 70 anos jamais havia "sapotireado" delícia igual. Só que, quando criança, eu não sabia que esta palavra jamais deveria ser masculina. Sapoti é uma fruta mulher, em tudo: seu sabor de seio cheiroso, sua maciez de mulher umedecida e prontinha para o amor. Seu formato vulvar se cortado em quatro partes iguais, guarda em segredo - mas logo revela - os filhotes da luzidia semente negra. É a Sapoti. Mas já hoje não podemos dar-lhe o feminino por que outra mulher, uma das vozes mais bonitas com a qual nosso País contou conta e cantou, já fixou para si o apelido de A Sapoti: a nossa grande Ângela Maria.

Sapoti não se come: beija-se e seu liquefazer-se no ato de união das carnes umedece-se da doce saliva da mulher amada e outras umidades que predispõem à cópula. Sua cor de morenice inexplicável, sua forma de pomo dos jardins do paraíso, a brasilidade no nome, a delicadeza e não resistência à entrega me dá a certeza: sapoti é mulher. Como manga é mulher. Abacaxi é homem. Caqui é mulher. Mamão é transformista. Pêra é mulher. Banana é homem. Amora é mulher. E o citado pecado original de Adão (pecado original existe, sim, mas é outra coisa) não foi com maçã, foi com sapoti. Juro.

Pomo feiticeiro de delícias sensuais, mulher transformada em fruto desde os tempos da mitologia grega (Dafne, belíssima, sem merecer, recebeu a vingança de um daqueles deuses que transavam com mortais, resistiu-lhe, manteve a virgindade e o vingativo, frustrado, a transformou na árvore do loureiro) e a coroa de louros (que hoje se bota no feijão...) enfeitava a cabeça dos heróis.

Pois tenho a certeza que o mesmo ocorreu com outra mulher ainda mais bela que Dafne e esta foi transformada na sapoti. Eu sei quem é, porém não digo o nome.

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