A Garganta da Serpente
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Brasil: nem ético, nem poético
(Arnaldo Massari)

O nosso país sempre foi um fruto cobiçado, desde o epopéico dos tempos da sua descoberta e das seguidas tentativas de conquistas e de conquistadores.

Entretanto, a História do Brasil demonstra que, já naquele longínquo dos séculos, o pau quebrava unicamente pelas suas riquezas. Nunca foi consignado por nenhum escriba, terem sido esses embates no propósito de defender o direito e a legitimidade dos índios ou dos gentios. Eram saques mesmo!

Pois é: de lá para cá nada mudou. A única diferença é a de que, agora, nos nossos dias de presenciais, notamos que os saqueadores de muitas plagas contam com a conivência de gente da própria terra, ou, ainda, estes em atuação solo.

Já não mais existem os emboabas, as lanças, as espadas e os bacamartes. Não se soca mais pólvora e, tampouco, as investidas corajosas e gananciosas são mais aquelas do peito aberto à própria vida; muito ao contrário: a continuada espoliação é covarde, mentirosa e escondida no primordial das tramas da compadrice, do corporativismo, da compra, da venda e da troca de interesses particulares múltiplos e seguidos. Não existem mãos a medir e, muito menos, o basta de qualquer elementar consciência. Tiradentes já contestava tais fatos, mas, infelizmente, morreu de graça, e nenhum seguidor apareceu em tantos séculos para honrar a sua memória. Que povo curioso será esse?

Nascendo a República, com ela veio a Dívida. Tem-se uma vasta galeria de nomes, no entanto, nenhum deles que tenha começado efetivamente a alinhar o país nos caminhos da verdadeira pavimentação do social e do progresso. O jequitibá é oriundo de uma pequena semente. Tivemos, sempre, o infortúnio de poucos bordões e muitos bordéis.

A sociedade brasileira, na atualidade, arca com uma dívida de aproximadamente um trilhão e trezentos bilhões de reais - crescente, indecente e nunca explicada em detalhes pelos governos. Sempre foi uma caixa-preta. Paga-se de juros - internos e externos - mensalmente, mais do que o equivalente aos valores dos projetos completos e das construções do AirBus, do transatlântico Queen Mary II, e do Eurotúnel. Juntos e por mês!

Com essa fábula que é drenada da economia, incrivelmente a cada trinta dias, imaginemos sem muito esforço criativo, o que poderia acontecer nas áreas da produção, da saúde, da educação, da segurança - enfim, no social como um todo. A cogitação não é dar o calote e tampouco chamar o Bocage para tratar com os credores, mas que a amortização acontecesse sem o bloqueio eterno aos passos para um desenvolvimento sustentado, sob todas as suas derivativas ao social e ao econômico. Quantas gerações já se foram no descrédito das suas próprias vidas e credoras de um merecido que nunca tiveram?

Sob outra avaliação, o bom observador fica estarrecido quando, através de notícias internacionais, tem o conhecimento dos custos de grandes obras no exterior comparando-as com outras de menor porte neste país. É um incontestável vilipêndio, pois, ainda, lá fora, além dos materiais, a mão-de-obra é muito mais elevada.

Pela ausência contumaz de qualquer governo que prestasse, apenas de pouquíssimos expoentes, sendo que esses sempre foram neutralizados pelos muitíssimos inconseqüentes, a carga tributária já chegou perigosamente ao patamar de quase quarenta por cento do PIB; ainda, com a despesa da máquina pública crescendo sem parar e desordenadamente. O desperdício é enorme, o descaminho é um horror!

A economia é sustentada por fundos, títulos diversos, especulação e investimentos voláteis, comandados pela usura nacional e internacional. Parasitos que nada fazem e tudo ganham. Estrangeiros vendilhões e apátridas, perigosíssimos e completamente alheios e desinteressados pelos destinos do país.

Procurando-se o que não existe, vê-se sentada junto com os banqueiros e, de pé e de costas para a população, a maior parte dos homens de mando do país. Para ratificar essa posição de conforto e de desídia, os principais bancos brasileiros faturaram em 2005, somente com tarifas, o monte de trinta bilhões de reais. Mas isso somente representou 40% das suas receitas. Ainda mais: pelo valor do imposto de renda pago pelos bancos, dá vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo.

Considerando-se os monopólios velados, telecomunicações, geração e distribuição de energia, mais os combustíveis, sente-se claramente que a população apenas representa o número multiplicador dos lucros absurdos às benesses empresariais, acionárias e políticas.

Portanto, o Brasil nunca foi um país inteiro, e sim fracionado em divisão fulgente desproporcional, negando os mais elementares dividendos sociais ao seu povo; mas, em imoral e extraordinária contrapartida - considerando-se o potencial do país - ostentando a terceira pior concentração de renda do mundo.

O modelo político brasileiro não abriga homens com ideais ou idéias no profundo das mudanças socioeconômicas. É apenas um clã apregoando ao futuro, arraigado no continuísmo e na hierarquia do poder e do gozo. É a política do paliativo, carente de bagagem e das muitas malas.

Candidatos que aceitam o país como ele está e, em foco principal, não denotam a coragem de expor e de pautar as suas ações diretamente ao crucial que é a dívida; apenas estão querendo, quanto tantos assim quiseram, satisfazer o seu ego e a sua vaidade. Irresponsavelmente, brindando com o mandato os seus compadres e companheiros de fé. Por conseguinte, aumentando a colossal dívida brasileira que, por sua vez, paulatinamente, trará mais e mais restrições ao social e ao desenvolvimento.

Fácil de entender, não tão difícil de mudar!

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