A Garganta da Serpente
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Gratuidade ou acuidade?
(Arnaldo Massari)

Passaram-se pouco mais de dez anos do advento da Internet.

No seu bem início, fortunas foram construídas rapidamente sob a desinformação do que então se apresentava grandioso, de porte inusitado e com uma abrangência jamais pensada.

Em época, os imaturos e estreantes internautas, pelo natural desconhecimento dos meandros dessa modernidade - na ocasião não muitos e nem bem definidos - absorviam a Internet sob o pressuposto e imediato raciocínio do tiro e queda.

Naqueles primórdios, formavam-se os provedores de acesso e de conteúdo e, conseqüentemente, a disputa pelas assinaturas. Surgiu, então, na briga selvagem pelo mercado que se apresentava a conquistar, a idéia da sub-reptícia gratuidade. Evidentemente, não por simplismo, mas sim pelos desdobramentos que um grande todo de convergência proporcionaria. Idéia inteligente que funcionou, mas, por si só, restritiva.

Nessa linha de raciocínio instituída pelo poder econômico, surgiu, em tosca cópia, a fragilidade dos pares acadêmicos, sem os profissionais conhecimentos e possibilidades financeiras de como usufruir pela gratuidade; estes, ingenuamente, com premissas de oferecimentos, avocando insistentemente o nome das deusas pagãs. Engano fatal. Milhões de propostas de graça e sem graça brotaram tal e qual em pradarias após o período das chuvas. Não mais existem.

Vivemos num corrosivo status que, sem receita, não há como sobreviver ou construir alguma coisa. Haja vista que alguém pagou para nascermos, e alguém, provavelmente, arcará com as despesas do nosso funeral.

Para tudo o que é gratuito, usualmente falta a qualidade e está fadada à descontinuidade. Se não houver a receita - pois o nosso mundo é capitalista -, as despesas serão, mais cedo ou mais tarde, impeditivas aos avanços da valia e do valor.

Sob esse procedimento um tanto quanto açodado, inverossímil, vaidoso e piegas, queda-se abrigado, com certa tristeza, o drama dos escritores no país. Estes, por muito sabedores de que todos os alardeados incentivos ao livro, sempre terminaram com a fala ou com a leitura do texto do então enunciado, pela desesperança, vivenciam um absurdo ainda maior: o de passar a oferecer os seus livros gratuitamente. Cabe ressaltar, em última análise, que nos trabalhos sem valor oferecidos a esmo abriguem razões implícitas, tudo bem. No entanto, ótimas criações completas serem jogadas ao vento é simplesmente ridículo.

Amostras grátis de livros inteiros? Isso não existe, pois não são brindes. Para leitura e deleite, já existem as bibliotecas públicas. Não consta que artistas plásticos distribuam as suas obras de arte a quem quiser. As músicas são cedidas ou vendidas? Até o adubo, por acaso, é gratuito? Se existe o mérito, a troco do que se desmerecer? Vaidade mórbida? Falta de autoconfiança? Descrença do fixar o nome na Literatura?

O que é oferecido gratuitamente, sem ter havido nenhum apelo e quiçá o merecimento, é um procedimento que, intrinsecamente, denigre o oferecido, mesmo em que lá esteja um valioso conteúdo.

O caminho literário como todos os outros da arte é vencido a pé. E, em muitas das vezes, sem os sapatos. O que não cabe sob nenhum pretexto ou razão é oferecer lazer e conhecimento em lirismo de idiotismo.

Por favor, senhores alvissareiros das deusas pagãs. Quando não se conhece o enfermeiro, nem injeção é de graça. E, se for de graça, haverá fatalmente a dúvida da sua não-eficácia.

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