| Arnaldo Massari |
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Como é difícil ser santo
(Arnaldo Massari)
Aqueles de casa, ditos como não milagreiros - os pais de família -, não são propriamente santos, não resplandecem o fulgor
da auréola e tampouco ostentam a pretexta; mas, seguramente, fazem milagres!
Conseguem a duras penas, de um jeito ou de outro, proteger os seus familiares,
ferindo-se diariamente na aspereza do calvário dos dividendos sociais
do país.
A elite econômica brasileira, sob a bandeira do voraz apetite peninsular
em juros do roubar, da exploração fria e sem nenhuma sanção,
vai ao culto aos domingos, recebe os respingos da bênção
e, depois da missa, remanesce na preguiça, na Doutrina de Ário,
do não solidário. Um verdadeiro horror, não?
Mas a vida é assim mesmo - sendo que no Brasil é muito pior!
Divagando, buscando nas avaliações, fixando o olhar no horizonte
e no mundo, andando em avenidas e em ruelas, não é fácil
encontrar santo e verdade; buscá-los no demoníaco do humano é
peregrinar numa via de cruciais decepções. Quando a graça
é alcançada e a verdade aflora, arre!... então, o milagre
aconteceu!
Entre santos e milagres estão as religiões, as igrejas, os credos
e o dogmático - num mundo confuso e caviloso, às vezes abrandado
por atos, poucos, alguns legítimos, mas que, a rigor, denota um recalcitrante
antagonismo entre o apostolado e a realidade. É quando os aventureiros
de todas as plagas, pescadores da falta do esclarecimento dos indivíduos,
plantam paixões e colhem literalmente a vida dos seus embevecidos através
das suas consciências malformadas.
Considerando que a Humanidade, os costumes e a Ciência evoluíram
com extrema rapidez, mais nos cinqüenta últimos anos do que em todo
o seu acumulado; no entanto, inúmeros antigos preconceitos, apesar de
já serem critério, para muitos ainda se quedam no fundo das mais
elementares conjecturas, dúvidas, impasses, fanatismo e má-fé.
Quer em visão de mundo, quer no inaudito da decência.
Incongruência bem antiga, já em turfa, cristalizada, é o
de certas religiões posicionarem-se em contrário à fisiologia
humana, principalmente a dos seus pares, quando exige o celibato. Por que tal
coisa? A ótica do pressupor de que o sexo é pecado, em riste aos
seus representantes, procurando cercear uma atividade glandular inerente a todos
os organismos, é algo difícil de plenitude no impossível
da obediência, fazendo com que esse estabelecido esteja sempre prejudicado
pelas dúvidas que se fazem certas e desnecessárias.
Essa proibição faz e valoriza um indecente que não existe.
Por certo, todas as religiões aí estão pelo simplório
e determinante contato sexual que mantém a sucessão da vida. O
celibato, certamente, traz implicações outras, muito mais profundas,
exóticas e rebuscadas, quando na preferência de muitos em abraçarem
a vida religiosa. As distorções sexuais nos meios religiosos se
repetem e decepcionam.
No efetivo, esse convir por não ter evoluído devidamente, sabiamente,
abrindo as suas portas de saída pelo não critério, perdeu
boa parte do seu rebanho aos aproveitadores, os rábulas de Deus que,
em templos similares, com bispos, bispas e biscas, desancam com a Fé
em um bom negócio - e que engodo! Os que lá freqüentam -
em número crescente e assustador - precisariam ser alertados de que a
Crença Maior é isenta dos bens materiais e não precisa
de intermediários.
Sobre mais algum outro encarte que instila e que destila o atraso de civilização
está o dogmático - bem mais contundente: escraviza populações
inteiras sob o jugo de política religiosa - uma barbaridade - ou de um
socialismo sem sócios, onde, no primeiro, o obstinado aos credos enlouquece
os seus seguidores e, no segundo, aniquila os seus discordantes.
A ortodoxia, fanática e fundamentalista, absolutamente cega e alheia
às outras visões da evolução humana, sob os mandos
e as renitentes orações, incute em seu povo - aos ignorantes,
o convencimento; aos esclarecidos, sob a opressão e o temor - em ridículas
assertivas, ser o sofrimento o caminho da purificação. O suicídio
de jovens terroristas, o desalento da miséria, o descaminho de futuro,
a fome que a tudo faz aceitar, fazem com que a purificação
seja um incontestável e maldoso caminho aos que assim crendo ficam prontos
para aceitar qualquer coisa. No entanto, os mistificadores, com a sua imutável
verve à intolerância, sempre preferiram não apear do realístico
das impuras benesses.
Esses iconologistas, pela conveniência do poder e não pela convicção
do dizer, sustentam-se na premissa da falta de informação, do
medo, da desesperança e do rancor que, passados de pai para filho, tornam-nos
fatalmente joguetes da blend política com religião, uma
lástima para a diversidade de opinião e do esclarecimento aos
indivíduos.
No seguir desses tantos instituídos, de través, posicionam-se
a Ciência e os Teóricos, apresentando cintilantes fatos e teorias,
fazendo com que o abismal entre a evolução e a tradição,
cada vez mais, repique em indagações até agora irrespondíveis
- quiçá já ponderáveis, mas, em guardado no respeito
e no comedido, até agora.
O sentimento consciente dos acreditados no vernáculo de cada um, daqueles
milhões que por séculos advieram de conceitos irrefutáveis
ou mantiveram-se encapados pela não lucidez da inteligência
ou da liberdade de pensamento, faz com que em um só mundo e, basicamente,
com uma única crença, haja o arredio da convivência e da
concessão. O ódio, o desprezo aos valores de outrem e a vingança
injusta e implacável.
Como poder ser santo sob as muitas implicações e mutilações
no contemplar dos tantos horrores da Humanidade? O indubitável, o justo
que nunca aconteceu, algum dia acontecerá? Por que o poder dos milagres
sempre foi restrito? Como compreender? Estaríamos em raso num paraíso,
ou em pleno num purgatório? A orientação e a explicação
de tudo e a todos em verdadeiro advirão um dia de quem? Será que
ainda vai demorar muito?
No temerário dessas dúvidas, ou, pela impossibilidade de julgar
as tantas ambigüidades, ao menos, pelo âmbito pequeno dos milagres,
o melhor mesmo é permanecer como Santo de Casa. Assim, é muito
provável que seja mantida alguma legitimidade, e com a família
encontrando uma pequena salvação.
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