| Andréa Murony |
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A Dor
(Andréa Murony)
- Estou com uma dor no céu da boca...
- Hããã?
- É. Dor no céu da boca. Na verdade é uma espécie
de queimação, tipo uma azia buco-celestial, sabe ? Desde ontem.
- De onde é que você tirou isso?
- Como assim de onde tirei isso? De mim, ué, do meu corpo. Provavelmente
dos meus centros nervosos. Sou uma mulher sensível, pô;!
- Você está louca.
- Louca por quê? Me dê uma razão, uma unicazinha, que comprove
que meu
céu da boca não possa doer.
- Ah, razão, assim, baseada em fatos concretos, eu não tenho não;
mas é que nunca ouvi falar em alguém que tenha tido dor no céu
da boca.
- Nunca ouviu porque é uma inculta.
- Se você vai levar a conversa pra esse lado...
- Desculpa, foi apenas uma constatação. Veja só, eu tenho
uma amiga, por exemplo, que vira e mexe tem dores nas sobrancelhas.
- Você está me tirando...
- Não estou, não. Não é sempre, ela me disse, mas
periodicamente as suas sobrancelhas doem.
- Imagine, isso é tudo conversa mole.
- Não estou entendendo porque tanto ceticismo. E gratuito, heim?! Analisemos:
as sobrancelhas ficam no rosto, não ficam?
- Ficam.
- E no rosto, por trás da pele, têm veias com sangue, não?
- Tem, mas o que é que tem a ver a veia com a dor?
- Como o que é que tem a ver?? Tem tudo a ver. Ainda mais que as sobrancelhas
são vizinhas das têmporas que são, todo mundo sabe, muito
sensíveis.
- Você já está delirando. Pra mim essa conversa não
faz o menor sentido.
- Claro que faz, Val. Suponhamos que a raiz da sobrancelha encrave ou até
quem sabe inflame, heim, heim? Não vai doer, é?
- Encravar vá lá, mas inflamar? Por que diabos haveria de uma raiz
de sobrancelha inflamar?
- E eu é quem sei? Quem sou eu, nesta vida de mistérios, para decifrar
os recô;ncavos segredos do corpo humano? Os desconhecidos caminhos pelos
quais...
- Tá bom, tá bom, cancela a metafísica. Mas, me diga, e o
céu da boca?
- Ué, também faz parte do corpo humano, tem pele e por trás
da pele têm veias...
- Lá vem você com essa história de veias de novo. E o que
é que faz doer? Não venha me dizer que é um dente encravado...
- Tsc, tsc, tsc, assim não há a menor condição de
continuar a conversar com você. Quer saber? Vou desvendar, e vai ser agora,
quais são todos os mecanismos que movem a dor pelo espetacular corpo humano
e comprovar a minha teoria.
Depois de alguns minutos, ela volta, absorta, um dicionário entre os braços.
- Ahá! Ouça bem o que vou lhe dizer: "Dor: sensação
desagradável, variável em intensidade e em extensão de localização,
produzida pela estimulação de terminações nervosas
especiais." Heim? Pegou?
- Peguei o quê
- Como o quê?
- É só isso?
- Só isso, só isso, que é que você queria?
- Ué, pra quem saiu daqui toda emplumada, clamando aos quatro ventos que
iria desvendar todos os mecanismos da dor e sei lá o que mais, me aparece
agora com uma reles definição.
- Reles não senhora, que esse dicionário é conceituadíssimo.
- Está bom, mas e daí? Que raio isso tem com o céu da tua
boca?
- Nossa senhora, heim? A gente também que explicar tudo, dá licença.
Presta um pouco de atenção, se for possível. "(...)
variável em extensão de localização" hãã?,
"produzida pela estimulação de terminações nervosas
especiais."
- ???
- Bingo! É isso. Terminações nervosas especiais. Veja bem,
não são quaisquer terminações nervosas, são
somente as especiais.
- E quem disse que há terminações nervosas no céu
da tua boca, quanto mais especiais? Ou lá na sobrancelha da fulana tua
amiga?
- Nossa, como ás vezes é difícil conviver com a ignorância
alheia. É claro que há terminações, senão não
haveria de doer. Capitte?
- Mas pra mim não dói mesmo, acho que isso é tudo fruto dessa
tua imaginação desarvorada. Mas suponhamos, olha só, eu não
estou concordando com essa sandice, estou só considerando uma situação
hipotética, suponhamos que realmente sua teoria tenha cabimento, essas
tais terminações nervosas seriam estimuladas por...
- Comida. Só dói quando eu como. Não toda vez que como, mas
tudo começou com um doce de figo, sabe, e depois até um caldinho
lá que tomei me doeu e... peraí.
- Que é que foi agora?
- Olha só, olha o que achei aqui no dicionário: "Dor cansada:
dor surda."
- O ouvido está doendo também agora? Ou será o lóbulo?
Já sei, já sei, encravou a cartilagem.
- Continuando: "Dor surda: dor que nem é forte nem aguda. Dor cansada"
- Santo deus, onde vai dar esse papo? Diga aí, Sherlock, qual a grande
nova conclusão?
- Essa é a descrição perfeita da minha queimação.
Não dói nem forte nem aguda porque é dor cansada. Claro,
só pode ser isso. A dor quer doer mas está lá meio cansada,
com preguiça, então não vai doer uma cabeça ou um
dente, que dão muito trabalho, sabe como é, acaba doendo mesmo um
céu da boca ou uma sobrancelha que são mais fáceis, né?
Dói mas não é aquela coisa assim de dor. Eu acredito que
ela tenha cumprido o seu papel. É. É dor, tem de doer, doeu. Assim,
simples.
- Minha nossa, você endoidou de vez.
- Endoidei nada, faz muito sentido.
- Faz, faz sim. Então é isso, tá? A conversa está
muito boa, deveras construtiva, mas eu já vou indo.
- Já, tão cedo...
- Pois é, meu bom senso está começando a doer.
- Cética.
- Maluca.
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