A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Diário de um solitário

(Anderson Fabiano

Querido diário,

Ontem à tarde, beijei Carol. Quer dizer, na verdade, ela me beijou. Explico: a gente estava num bar do Leblon, grupo grande, algazarra alcoólica, jogo do Flamengo na TV, gente com grana e gente dura, tudo misturado. Fomos pra lá de carona com ela, eu e uma amiga. Mulher jovem, bonita de boca bonita e corpo desejável. Ainda não conhecia aquela mineirinha de sotaque gostoso.

Falávamos sobre tudo e, como convém a um papo de botequim, sobre nada, também. De repente, ali pela quarta ou quinta rodada de chope, naquele senta-e-levanta que ninguém explica, dei de cara com Carol olhando, fixamente, pra mim. Achei legal, mas tentei fingir que não notei e toquei a vida.

Mais a frente, entre uma ida ao banheiro e uma pedida de bolinho de bacalhau vi-me, de novo, a centímetros do rosto de Carol e, uma vez mais, ela me olhava. Desta vez, deixei a tal da vida de lado e olhei fixamente para seus olhos apertadinhos e lentamente, baixei meu olhar até sua boca. Foi ai que Carol me beijou. Nada além de um selinho roubado. Nossos rostos estavam tão próximos, que sentia sua respiração acelerada. Sem me dar conta do resto do bando, disse-lhe: "se é pra fazer isso, vamos fazer bem feito". Nem reparei que justo no momento em que peguei sua nuca com a mão direita, o garçom interpôs-se entre nós e a mesa, para distribuir os chopes pedidos. Beijei aqueles lábios macios, primeiro suavemente. Mas, logo o beijinho inocente transformou-se num beijo intenso, apaixonado, com duas serpentes pesquisando as cavidades bucais um do outro.

O garçom saiu e todos viram nosso beijo. O primeiro silêncio foi, de imediato, substituído pelas manifestações sacanas e ruidosas de um grupo que, até aquele instante, desconhecia o que rolava entre mim e Carol.

Dali pra frente, nosso resto de tarde teve outro gosto, outros propósitos e a noite veio inevitável, conveniente e convidativa.

Muitos outros beijos foram dados, roubados, consentidos por toda uma noite.

Agora é outro dia e posso, enfim, dormir. Mas, ontem, beijei Carol. Ou melhor, comecei a beijá-la.

Ou será que, uma vez mais, exagerei no chope com Steinhagen?

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