A Garganta da Serpente
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Bloomsday in Dublin
(Ana Guimarães)

O canto das gaivotas é ouvido do meu quarto do hotel Blooms. Na verdade, por toda a parte. De qualquer ponto da cidade - estou em Dublin, assim nomeada porque a atravessa o Dubbh Linn (Lago Escuro, em irlandês), as águas escuras do rio Liffey - posso vê-las fazendo acrobacias no céu, bem baixinho, num bailado circular cuja coreografia lembra os movimentos do marinheiro que Joyce pareceu ser a Nora, no seu deles primeiro encontro: aquele que vem e vai. Parte (e reparte, e fica com a melhor parte, pois tem arte), mas está sempre voltando. Ou volta, embora sempre partindo. Como a gente, à procura de terra firme, de um porto seguro. De uma calmaria ao menos, mesmo que, quando com ela nos deparamos assusta, amedronta: prenúncio de tempestade.

Dezesseis de junho de dois mil e cinco. Do primeiro Bloomsday a gente nunca esquece. (Existirão outros? Duvido, só se as asas de outro simpósio Joyce/Lacan aqui me trouxerem de novo. Que maravilha o Dublin Castle onde ele se realiza!)

Percorro, passo a passo, os lugares mencionados nas andanças de Bloom naquele distante 1904, retratadas no Ulisses. Começo pelo banho de mar na minúscula praia (uma faixa de areia, na verdade) mais rochosa que do que qualquer outra coisa, de Sandycove Martello Tower. Cheia de banhistas que se trocam à vontade, seus brancos bundões e melões de fora.

Adentro o museu JJ aí instalado e, depois de ver documentos, objetos pessoais, fotografias, primeiras edições dos livros, uma réplica de sua máscara mortuária, souvenires de todos os tipos, subo a estreita escada de pedra em caracol, e meus olhos lacrimejam, meu nariz funga, não só pelo pó que em tudo se deposita: deparo-me com o quarto onde Joyce viveu, ainda que por um breve período de tempo. A cama, a estátua de uma black panter: parece que estou vendo aquela famosa cena descrita no primeiro capítulo. Mais uns degraus e, no topo, uma estonteante vista da baía se abre em 360 graus. Para não sucumbir à emoção, utilizo-me desse artifício de afastamento e proteção contra a realidade: a câmera fotográfica.

A celebração continua como um festival, dizem-me. Toda a cidade é festa. Leituras e performances me esperam em cada esquina.

No JJ Centre mais taquicardia: uma belíssima casa do século XVIII abriga suas obras nas mais diversas línguas, e uma mostra de sua vida em vídeo, para aficionados que enchem a sala de silêncio e reverência. Eu, sempre tagarela, me calo também.

Na National Library uma exibição - com tecnologia multimídia interativa - de desenhos e manuscritos do escritor, ainda desconhecidos e recém-adquiridos (2002).

Uma visita guiada ao Clongowes Wood College, a escola jesuíta na qual ele estudou de 1888 a 1891, revelou recantos onde aconteceram aqueles conhecidos episódios do primeiro capitulo do autobiográfico Retrato, com Stephen Dedalus.

Constatar que Joyce nunca será esquecido, para sempre lembrado, discutido, amado, não só por universitários que dele se ocuparão por séculos e séculos como ele próprio queria é um gozo extra: sua estátua quase na esquina de Earl Street North com O'Connell vive rodeada de irreverentes admiradores.

Fechei o dia (só escurece por volta de dez, dez e meia da noite) tomando uma Guiness no Davy Byrnes, o bar freqüentado por Joyce, lotado dentro e fora, mais parecendo o baixo Gávea, com faceiras - e corajosas - moças usando chapéus a la Molly Bloom, em sua homenagem.

"Trocando escuridão por luz" é o título da exposição do Book of Kells, na Trinity College Library Dublin, um relato dos evangelhos criados pelos monges irlandeses do século IX, fartamente consultado por Joyce quando ainda muito jovem. Pudera. Aí vai um trecho que explica o porque:

Pángur Bán

Solemos yo y Pángur Bán, mi gato,
en lo mismo los dos pasar el rato:
cazar ratones es su diversión,
cazar más bien palabras mi passión.

Es preferible a todo aplauso humano
sentarse con papel y pluma en mano;
y Pángur no me mira con rencor,
siendo él también sencillo cazador.

Frecuentemente, um ratoncillo errante
cruza el camino de mi gato andante;
alguna idea más, frecuentemente,
coge en sus redes mi afilada mente.

Vigila el muro con sus ojos vivos,
redondos, maliciosos, agresivos;
escudriñando el muro del saber,
mi poca comprensión busco extender.

Dia tras dias, a Pángur su ejercicio
lo ha hecho ya perfecto en el oficio;
yo noche y dia alcanzo más verdad,
trocando en clara luz la oscuridad.

(Escrito en el siglo IX por un monje irlandes en St. Gallen, Suiza)


Pángur Ban

I and Pangur Bán my cat
`Tis a like task we are at:
Hunting mice is his delight,
Hunting words I sit all night.

Better far than praise of men
`This to sit with book and pen;
Pangur bears me no ill will
He too plies his simple skill

Oftentimes a mouse will stray
In the hero Pangur`s way;
Oftentimes my keen thought set
Takes a meaning in its net.

`Gainst the wall he sets his eye
Full and fierce and sharp and sly;
`Gainst the wall of knowledge I
All my little wisdom try.

Practice every day has made
Pangur perfect in his trade;
I get wisdom day and night
Turning darkness into light

(Written by a ninth-century Irish monk in St Gallen, Switzerland)

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