| Américo Camarinha |
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A herança do sangue
(Américo Camarinha)
Talvez a nossa origem esteja na causa do comportamento que "usamos"
na transparência em que se envolvem as relações de sangue.
Recordando uma infância sem grandes alegrias e carinhos, comparável
com o vácuo existente dentro de uma cápsula vazia hermeticamente
fechada, onde era mal aceite o cultivo de amizades entre alguém diferente
dos que habitavam dentro de edifício exíguo, pobre, desprovido
das condições necessárias de higiene, que era a nossa casa,
quando, as possibilidades eram já bem visíveis.
Quem são os amigos dos nossos pais, que nós filhos os estimamos
como tal - ninguém.
Quem são os amigos dos nossos irmãos, que nós partilhamos
e temos prazer na sua existência - ninguém.
O que resta então desta falta total de criar e conviver com amigos, senão
um outro tipo de amigos que são os irmãos, que, vivem do mesmo
vácuo onde gera a hipocrisia transmitida desde a data de nascimento de
cada um.
Estranhamente e para gáudio de todos surgiu uma tábua de salvação
para cada qual, que é a sua própria família (restrita)
- esposa, marido e filhos, onde, cultivamos a antítese do vácuo
e o desculpamos.
Logo, o perdão não carece de expressão, ele, vive permanente
naquele limbo que é o vácuo, e, senão raramente afecta
simplesmente o umbigo de cada um.
Existe um poema de Alberto Caeiro que define todo o dédalo deste "género"
de sentimento que passo a citar:
"... Aceito por personalidade.
Nasci sujeito com os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo."
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