| Adriana Santiago |
  |
Caminho de Santiago
(Adriana Santiago)
Preta, branca. Preta, branca. Preta, pula uma, branca. Preta, branca são
as "cores" das pedras da calçada por onde caminho a passos
lentos e arrastados. O luar e o céu cobrem minha cabeça e a cabeça
de vários meninos que dormem nessas calçadas de pedras pretas
e brancas. De repente, gritos de uma multidão próxima desperta
minha atenção. Me aproximo. Já posso entender o que gritam.
Querem melhores salários. Justo, penso eu. São professoras. Professoras...
essas pessoas que nos ensinam a ler, escrever, fazer contas, para um dia arrumarmos
um emprego, comprarmos uma casa, um carro (em alguns casos um jet-ski, um jatinho,
uma lancha...) Enfim, nos dão as ferramentas para construirmos nossa
vida.
Perguntei a uma delas: "pelo que brigam?" Reivindicavam um salário
que compraria mais uns quilinhos de feijão no final do mês. Dei
as costas e, nesse trajeto final, segui pensando: trabalhadores têm que
trabalhar para viver. Lutam porque têm que lutar. Não temos outra
opção. Lutar para viver (ou pelo menos sobreviver).
Remoendo tudo isso e ainda a passos lentos e arrastados, doídos até,
como se agora, além do meu cansaço, carregasse a luta de todas
aquelas mulheres, dizia a mim mesmo: vai Santiago, não pare agora. Desaperto
a gravata, desabotôo o primeiro botão da camisa, limpo a testa
com as costas da mão. Subo o morro final. O sapato aperta, a fome corrói,
a chave emperra, dou um soco na porta, dói a minha mão. Aperto
a campainha, Rosa vem abrir. Deito e não penso em mais nada. Amanhã
começa tudo outra vez.
544 visitas desde 6/05/2007
|