A Garganta da Serpente
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Achel Tinoco saiba mais sobre o autor

Roberto Carlos em Detalhes
(Achel Tinoco)

O livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César de Araújo, é uma belíssima homenagem à música brasileira; muito bem escrito e criterioso. Numa pesquisa exaustiva, o autor conseguiu esmiuçar a música brasileira dos últimos 50 anos, seus principais personagens, suas engrenagens e malandragens, sem que para isso precisasse ser infiel ou vulgar, pelo contrário: em suas quase 500 páginas, cada um tem um papel definido, importante, imprescindível. Não se percebe, em momento algum, qualquer tipo de agressão ou desrespeito ao biografado, pelo contrário, somente elogios à sua luta desesperada para vencer como cantor. Por tudo isso, não se pode entender por que esse livro foi tão intoleravelmente censurado e jogado à fogueira, como se estivéssemos revivendo o mundo de Cervantes.

A justiça - que nesse caso também deveria ser cega - arregalou bem os olhos para contemplar, idolatrar e admirar o ídolo muito mais do que o cidadão comum que deveria ser tratado como um cidadão comum, como, aliás, todos devemos ser perante a lei. Decerto a fama e o prestígio do artista a tenha impelido a resolver a pendenga com tanta rapidez, diferentemente do que acontece com outros casos semelhantes. Parece que Roberto Carlos até já se esqueceu como lutou para ser reconhecido, justamente para fazer este sucesso que hoje ele faz, com mérito e merecimento, não se pode esquecer, do mesmo jeito não se pode esquecer das outras vezes em que ele foi acusado de plágio e recorreu a essa mesma justiça tendo sempre a seu favor os olhos dela destampados.

Então, anote-se aí a jurisprudência do caso: outros e outros biografados, que não tenham suas histórias ditadas e açucaradas, já, já, recorrerão à justiça para, do mesmo modo, atear fogo contra os livros. Os livros que deveriam estar à mão do povo - porque são história - vão se queimando no fogo do inferno atiçado pouco a pouco pela censura, qual fênix, como se nada quisesse, apenas uma chama aqui, outra lá...

Eu, que também ousei escrever alguns casos do cantor Tim Maia, a partir das histórias que me foram contadas pelo também cantor Fábio (para o livro Até parece que foi sonho), deverei enfrentar o mesmo fogo: a família do artista achou na obra algumas contradições, como disseram, e assim esse gênero, a biografia, que tanto interesse desperta no leitor, vai tendo seus dias contados, como se chegássemos novamente à casa de Cervantes e ateássemos fogo à sua biblioteca.

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