A Garganta da Serpente
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O chapéu do deputado
(Achel Tinoco)

Antigamente, até para se demonstrar boa educação, quando se adentrava um recinto fechado ou à casa de um amigo, tirava-se o chapéu. E, somente para não esquecer, antigamente todo mundo usava chapéu. Com o tempo e com os volteios da moda, o chapéu caiu no esquecimento, a não ser aqueles bonés dos adolescentes e um ou outro senhor mais tradicional de vetusta idade que ainda costuma usá-lo. Assim, causou estranheza aos eleitores que um deputado use um chapéu de couro como extensão de seu corpo e dentro dele carregue todas as grandes idéias de seu mandato. Disse o suplente e hoje deputado Edigar Mão Branca que o chapéu faz parte dele, como o cérebro e a cabeça decerto. Desse modo, tudo que se encontrar no cérebro e na sua cabeça, encontrar-se-á também dentro do seu chapéu e por isso mesmo o Congresso parou por um dia inteiro para discuti-lo, o chapéu. Esse candidato foi quase eleito para representar o povo, mas quem o representa é o chapéu e como, sob sua ótica, não há nada mais importante a se discutir no Brasil do que o seu chapéu, porquanto se dá ao luxo de tal obscenidade. Agora o deputado já teve os seus 10 minutos de fama, talvez ele não tenha outra oportunidade de se sobressair tanto, uma vez que a sua grande idéia é justamente usar o chapéu, o único modo de aparecer, e como apareceu! Sim, mas agora faz-se preciso manter esse sucesso, então, na próxima semana, aliás, menos de uma semana - porque eles reduziram a semana em menos uma segunda e menos uma sexta -, vão discutir a qualidade do couro do chapéu, e noutra oportunidade, as correias do chapéu, e por ai vai... Ah, e se o chapéu perder a importância, ele vai chegar ao Congresso carregando a sanfona, porque também é sanfoneiro, e então dirá que a sanfona também é uma extensão do seu corpo. Ora, meu Deus, um deputado poderia até andar nu, contanto que trabalhasse; que produzisse; que tivesse vergonha na cara e fizesse um pouco pela gente que o elegeu. Mas como, se não tem capacidade nem educação para usar um chapéu! Daqui a pouco vai propor uma CPI, para se investigar a origem desse chapéu, se o couro usado para confeccioná-lo é de um boi baiano ou de um cabrito gaúcho.

Nem um, nem de outro: acho que é de um jumento mesmo!

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