| Achel Tinoco |
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Elementos de vidro
(Achel Tinoco)
Não, nenhum candidato é candidato por interesse próprio.
Ou porque o salário seja atraente, ou por causa da imunidade, ou por
todas as mordomias e status do cargo. Não. Nada disso. Eles são
desprovidos de vaidade e de ambição, nem conhecem Narciso. Todos,
sem exceção, querem entrar na política, por ideologia,
e para lutar pelo povo, e para defender os seus interesses e as suas reivindicações.
Depois de resolvidos os problemas desse povo - cada qual tem a fórmula
na ponta da língua - vão cuidar do desenvolvimento sustentável
da Bahia e do Brasil, acaso sobre algum, do sustento pessoal.
Mas, afinal, quais as obrigações dos deputados, por exemplo, que
não seja o de legislar? E como perguntar não deve ofendê-los,
como podem legislar se são, na grande maioria, ignorantes, incapazes,
pequenos? Ah, sim, legislam em causa própria, ia esquecendo de dizer,
por isso mesmo, quando são pegos mensaleiros, sanguessugas,
propineiros, ou coisa mais feia do gênero, correm para renunciar,
porque, no dia seguinte, estarão aptos outra vez para pedir o seu voto,
incauto eleitor, que a esse tempo já se esqueceu do nome deles. Assim
por diante, aplique-se aos senadores, aos governadores, ou seja, àqueles
que renegarem à boa conduta ética.
Ei-los novamente, igualmente pobres a mendigar um votinho "Pelo amor de
Deus", a prometer que desta vez vão investir na educação,
na saúde dos velhinhos e na segurança da população.
Balela. Se assim o fizessem, bem sabem que não comprariam este voto,
teriam de conquistá-lo, como se conquista uma amizade fiel e verdadeira,
que não se vende e não se corrompe. A corrupção
não existe, eles dizem, ou é prática comum em todos os
governos, portanto, nada a fazer sobre essa matéria. É um assunto
de campanha, não passa de perseguição política!
Um milhão ali, outro acolá, uma beirada de emenda para um, uma
mala para o outro, nada que desvie o país de sua rota de crescimento
e prosperidade. Sabem que o povo até já se acostumou com a desfaçatez
dessa retórica.
Eis a questão: ser ou não ser honesto? É relativo, dirá
o compadre relator, na pizzaria do Planalto.
Eleição após eleição, são os mesmos
elementos de vidro - não agravando a todos, decerto - a desfilar pelos
postes, ruas e avenidas; tão solícitos, amáveis, amigos...
Fizeram tanto pela gente sofrida deste solo, oh, pátria infantil! Parecem
tão carentes, oxente, esses humoristas da política! Então,
nada mais do que justo que o presenteemos com o nosso voto.
O meu não.
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