| Achel Tinoco |
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As Religiões e a Mídia
(Achel Tinoco)
É verdade que as religiões vêm sendo usadas ao longo dos
séculos como instrumento de escravização e alienação
de muitos povos que, cegados pela fé exacerbada, entregaram-se à
palavra ferina e convincente de alguns senhores de sotaina que melhor sabiam
impostar a voz. Hoje poderíamos atribuir uma parte dessa manipulação
humana à própria ignorância da época e a necessidade
das pessoas em se apegar a forças superiores, capazes de lhes socorrer
nas muitas horas de sofrimento e necessidades básicas. Mas com a diversificação
e a facilidade da informação e da notícia, poder-se-ia
imaginar, erroneamente, que todo esse conhecimento fosse absorvido e compreendido
pelo homem moderno, de modo a não ser simplesmente catequizado por idéias
pré-concebidas desses espertalhões da fé, que até
criaram o reino eterno de Deus em benefício de suas convicções
e sabedoria, para incutir na cabeça de incautos seguidores enrolações
religiosas, como se possuíssem uma procuração assinada
por Deus, com plenos poderes, e fossem os únicos escolhidos e abençoados
por Ele. Pois, chega a ser insuportável a proliferação
desses programas religiosos na televisão brasileira. Nos finais de semana,
por exemplo, é quase impossível se encontrar um canal aberto que
não esteja ocupado, e por que não dizer impregnado por aqueles
discursos maçantes de moços empertigados de ternos e gravata,
que têm em comum a voz açucarada, longa, chorosa, de quem se purificou
nas águas límpidas dos rios, para dar maior dramatização
ao texto, previamente decorado, a fim desvendá-los com o tapa-olho da
devoção. Os frutos dessa fé obrigatória ver-se-ão
quase sempre nas urnas, onde estarão todos a implorar pelo seu voto;
mais uma vez em nome de Deus, que a essa altura, até já se tornou
político também. Não bastasse, esses oportunistas da fé
alheia em pouco irão se transformar em estrelas televisivas, inatingíveis,
imortais, a guiar a vida de milhares de telespectadores ingênuos, deixados
à própria fé até a próxima eleição.
Por isso, a televisão não deve, em absoluto, render-se a interesses
particulares a ponto de nos obrigar a assistir somente determinados espetáculos
ou a música escolhida por eles, cerceando nosso direito de escolha. Decerto
que todas as religiões devem ser respeitadas, assim como o direito de
cada um escolher livremente pelo menos um programa para assistir na televisão.
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