A Garganta da Serpente
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Rodrigo Pissardini
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EPITÁFIO À TUMBA DE BAUDELAIRE

À Tu Baudelaire o mais belo e o mais sábio escritor,
Que em tuas palavras geraste a dor e o amor

Tem piedade, Baudelaire , desta longa miséria!

Tu, que és o condenado, o Príncipe Mendigo,
E que venceste os teus adversários carcomidos,

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!

Tu, sábio e grande poeta ,que dedilhas com palavras
mortais
As entranhas dos demônios ancestrais

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!

Tu, que cedeste graça aos que te compreendem
E blasfema contra o rosto dos que sobre ti mentem,

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!

Ó tu, que à Morte recebeste com ternura,
Não temeste quando Ela estendeu o Cálice de Amargura

Tem piedade, Baudelaire , desta longa miséria!

Tu, que mostraste as máscaras da mundana hipocrisia,
E contra o divino amor mostraste a mentira,

Tem piedade, Baudelaire , desta longa miséria!


Tu, que ao homem - nas mãos do poder da corrupção
humana -
Ensinaste a pensar com sabedoria desumana,

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!

Tu que marcas com palavras teus discípulos
Marca a fronte dos que não tem escrúpulos

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que colocando o dedo na ferida escondida
Não temeste dos rufiões a investida,

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!


Pai dos que não cobiçam heranças divinas
E que a todos abriga debaixo de sua poesia

Tem piedade, Baudelaire, desta longa miséria!

 

 

Delicada Dama de mãos negras

Delicada Dama de mãos negras
De lábios suaves e frios
De atraente palidez e sedução
Por que foges de mim?

Por que anelo as carícias de tua lingua serpentina
E das tuas mãos quebradiças
E não cumpres o meu desejo
de apenas um beijo
Teu ?

Busco a frieza do teu corpo
E a tua presença desvanece
Entre os meus pensamentos incoerentes
E desejosos do teu amargo cálice adocicado.

Pode um poeta desejar mais vida do que morte ?
Quem é que,tendo conhecido o mistério da vida
E conhecendo aos deuses e os demônios
Se iludirá com vaidades
Desta vida
Cujo fim é o abismo
Mais profundo que o Tártaro?

A hipocrisia me cerca
Os homens se enlameiam em suas vaidades
Vivam,dizem,vivam...
Viva,dizem à mim,viva...

Meus olhos lacrimejam
Assento-me no mais alto monte
Na escuridão de meus próprios demônios
Rindo-me entre gritos para os homens
Filhos malditos, de uma geraçao maldita
Recebereis a morte como recompensa
Pois a Gloriosa Dama vem
Sabereis recepcioná-la
Com todas as honras que lhe são devidas ?

Venha a mim Dama Morte
E não me desesperarei como o fazem os filhos dos
homens.

 

 

TEFILÁ

Glória e louvor à Baudelaire nas profundezas
Do Reino que criaste para sua glória
Do Inferno que reinas em vitória
Faze que este poeta conhecedor do desconhecido,
Repouse junto a ti sem receio do inimigo
Sabendo do lado de ti um amigo!

 

 

O Sonho dos Inocentes

Dorme minha criança no teu mundo de sonhos
Deixa-te levar pelos pensamentos profanos
Hoje é teu último dia de vida
Não te deixarei viver em um mundo tão inconsequente
Que te levará para um abismo
Mais aterrador do que o infernos de Hades e Dante.

Os demônios de teus sonhos
Que vês ali no canto escuro
São melhores do que os homens
Pois os demônios desvanecem no acordar
Mas os homens afundarão tua vida em desespero
Farão de tuas lágrimas o teu caminho
Até que te afundarão no esterco dos seus desejos
E no teu suor e em teu sangue morrerás sufocada.

Ouve e vê as estrelas do céu
Para lá tu irás
Verás de cima,e não de baixo a podridão
E matarás com tuas mãos os deuses que criaram
Tão peçonhenta raça de víboras.

Minhas mãos te trarão tua paz
Meu desejo fará tu dormir em eterna paz
E verás que ali no Hades não há tão horríveis trevas.

Dorme minha criança
Dorme...
Dorme...
Para sempre.

 

 

O Fim do Mundo

"L´avenir ,fantôme aux mains vides,/
Qui promet tout et qui n´a rien"
O Futuro,fantasma de mãos vazias/
Que promete e nada tem
-Victor Hugo,As Vozes Interiores "Sunt Lacrymae Rerum"

I

Na minha solidão tive desejos profanos
No meu mais alto retiro decidi loucamente o que fazer
Destruirei o mundo e tudo o que nele há
E nada me demoverá deste propósito.
As leis do meu coração são irredutíveis
Tudo é inevitável,nada me fará voltar atrás.


II

O homem não é um fim em si mesmo
Nem perdurará por se aclamar imortal
Seu destino é o passamento
Dos Amores e dos Valores não se ouvirão falar
Quando os passar de debaixo dos céus.

E até os deuses,que criaram à sua imagem e semelhança
Não se ouvirá mais falar
Debaixo dos céus só se ouvirá o silêncio dos mortos
E às crianças que se negou o auxilio de viver
Descansarão em paz no meu jardim.

III

O Bem e o Mal converterar-se-á
Em menos do que quimeras
Pois enfim quando o homem passar
A harmonia reinará (será?)

IV

Ai de mim,que sou homem (deus ?)!
Digo-vos ,escondido,criei um deus em minhas mãos
Sim,insuflei-lhe vida,e ele viveu
E eu ,seu criador,me submeti à ele!
Ele,que tirei nos moldes do meu preconceito
E de minha moral!

V

Vou pronunciar um cântico
Que ouvi entre filhos estranhos :

Os deuses fugiram!
Sim,com medo do que acontecerá aos filhos dos homens !

Decidiram partir,e não serem atormentados
Pois são demasiados humanos
Para a infelicidade.
Mataram aquele que haviam eleito como o único deus
E fugiram (não se sabe onde)
Disseram:Escondamo-nos e sejamos esquecidos
Talvez não se lembrem de nós
E um dia despertemos para um mundo
Que seja menos corrupto.

VI

As máscaras cairam de repente
O que era belo tornou-se frio e distante
O que era inocente transformou-se na destruição
De todo o meu ser.
Não há inocentes debaixo dos céus
Não há salvação para os homens!

VII

Os loucos,poetas e filósofos aclamarão aquele dia
Chegou nossa libertação!
Os religiosos serão imergidos
No inferno da sua decepção
E nenhum humano achará abrigo
Para minha ira.
Destruirei todos os homens
Impíos e bondosos
E todas as leis e morais destruirei
Somente os artistas e os inconsequentes
Acharão abrigo fora deste inferno.

Destruirei e destruirei
Não terei compaixão dos seres do universo corrompido
Destruirei
Pois me detruiram e jogaram for do seu mundo.

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