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Espero-te pelos dias fora num café, numa rua de árvores
entre uma avenida e outra.
Não sei se vens; é como um prazer antigo, este café amargo,
estas mãos pelos jornais, estas sombras de rostos iguais.
No quarto pequeno, longe destas ruas, vais deitar-te sobre um leito,
deixas-me, sobre o fogão, o mesmo corpo que eu esqueço pelos dias,
vamos morrer também, um dia destes,
a tomar o mesmo chá,
a falar sobre as mesmas coisas.
De noite, trazes para o quarto um tabuleiro com comidas,
deitas-te e fica a misturar-se com o teu corpo
um cheiro a roupa lavada.
Lês depois qualquer livro durante horas seguidas
e deixas guiar-te por um silêncio quase eterno
que é o das letras escritas em linhas sem fim,
estes símbolos foram inventados para que nos perdêssemos neles
e para ficarmos a conhecer os segredos de alguém,
aqueles que nem poderiam confessar senão às palavras.
Os ruídos lá fora são lentos,
quando chega um carro ouvem-se portas que batem
e algumas vozes que se confundem com a noite
e com os gestos sempre atrasados que trazes contigo.
Disseste que Deus estava qui ao pé,
pensavas talvez num modo de reconhecê-lo quando chegasse.
Quando me roubarem as palavras
ficarei então morto para sempre,
como quem não tem memórias
que lhe fiquem por este mundo.
Para trás fica apenas um nome,
pouco mais que nada,
que não há dor que possa sentir
que dure mais do que este instante.
Quando me vejo ao espelho, de quem são
aqueles olhos que me olham?
De onde vieram estes lábios
com que te beijo todos os dias?
Estes cabelos que aqui tenho,
herdei-os de onde e quando?
De que filhos de outros filhos
me vieram estas memórias?
Pedaço após pedaço,
descubro que não sou ninguém
e que aquele que aqui está
apenas o está por empréstimo.
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