A Garganta da Serpente
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Renan Barbosa
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A LUZ DO DIA NÃO É CONSOLO I

Mar de amarras
Onde aprisiono
Indolentes verdades
Arrastam-se covardes,
Pouco ansiosas por
Despertar
Sonham a suspiros
e braços cruzados
Entoam lamentos
e recolhem-se
após eleito
o poema-
pés aflitos
refugiando-se de
ondas intermináveis.
A luz do dia não é consolo.
Porque o mar
Devolve à areia
seus dejetos
E o caminhador
solitário não
consegue alcançar
as direções
das rotas disformes.

 

 

A LUZ DO DIA NÃO É CONSOLO II

[ O catre ]
de tão solitário
se transformou
em jazigo.
Perdeu-se de
toda verdade
que um dia
- julgava-
seus olhos haviam
encerrado
Cravou as unhas
no reboco inconsistente
da própria mudez
E com o sangue
e a cal moldou
o formato das lágrimas.
Nunca mais chorou.
Fez-se um com
aquelas paredes.
E tapou com
saliva e sêmen
a fresta por
onde o sol
Ainda teimava
em se anunciar.

 

 

HILDA

Na sala, o poema se
desfaz em meneios de
finas texturas
Refaz-se na música
que ondula nas saias
E dissipa-se em névoas
de rosálidos olores.
No quarto, assume
a febril intermitência do coito
A voraz ferocidade do açoite
O festim estrondoso do arroto
O langor obtuso da noite.
O poema se deita.
O poema se adormece.
E o fraco poeta
habita, nu,
um corredor de mágoas.
Incapaz de, como
Hilda, ser
verbo em sangue
e volúpia

 

 

O REVERSO DO VERSO

(discretamente inspirado na poética de Manoel de Barros)

Não creio que já
Não saiba tudo
Agora que habito
Um céu sem muros
E sem espelhos.
Mas não persigo
A verdade
E a mentira
Se despregou
Da minha pele
Deixando-me só,
E oco.
Minha voz apenas
Vez em quando
Ecoa as canções
Escondidas por
Trás da dor,
Escondida atrás
Do sorriso.
Já nem sei
Do que rio.
Findaram-se
As crenças.
Árida metamorfose
Engendra-se dos
Meus dedos
Da boca escorre
Um caudaloso
Fio de pedras
Arrasto-me com
A languidez de um réptil
Atado à fibra
Dos martírios.
Beija-me a face
O pó do silêncio
Deixando na
Lágrima não nascida
Pegadas de sangue
Que confundem
O olhar e entristecem
As miragens.
Construo o reverso
Dos versos alheios.

 

 

QUASE UM REVERTÉRIO

Um salto
No primeiro ato
Um beijo
Adiante do cortejo
Um símbolo
Um lampejo
Um parágrafo
Uma rima
Tomar-se de
Poesia
Mastigar o orvalho na tez
Aveludada das
Violetas
Antecipar as
Maledicências
Do frio
Lançar chamas
No asfalto
Molhado
Mergulhar
Na morna brisa
Dos verões
Explorar os recantos
Sagrados da
Castidade
Bravura de
Línguas
Desespero de
Mãos
Quentura de
Saliva
Atrito de
Sonhos
Maciez de
Desejos
Um toque
Um trato
Entre a
Descoberta e
O encontro
Entre a
Confissão
E o conto
Quase prosa
Quase rouco
Quase rosa
Quase lilás
Quase louco
Quase um
Revertério...

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