A Garganta da Serpente
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Renaldo Ventura


O Mundo Sem Ela (reprise)

Eu já fui jovem e na sombra frutífera da groselheira
toda a nossa vida
nela
o gentil murmúrio reconhecido pelos nossos ouvidos
ela no Verão das nossas vidas
desta vez e para sempre
no alto desse sorriso rosa doce a vida continuará prenúncio de dédalos
marca então encontro comigo,um fugaz encontro num virar de esquina desse olhar
que me faz desistir da vida
onde o morno do borralho de dolor se mantem vivo
marca encontro comigo nem que seja do outro lado do mundo
onde todos os meus eus e a mulher na vida de todos eles
anseiam o teu trejeito
para eles um trajecto de vida
a beleza ainda possível
a pequenos instantes de lágrimas até ai desconhecidas
o sorriso que se torna um esgar
a sombra outrora fecunda era agora memorial de desespero
mais alguns passos e estariamos longe da groselheira
para sempre:
Tragos convulsos ,e as palavras corrediças
poesia escrita em urgência
um livro de si para si .

E como mesmo a morte tem sabor
tu recordarás o sabor maduro da groselha.

 

 

Um Mundo Todo Nela

Um mundo de triste existir em céus de cor parda
bandos quedos de nuvens

outrora

numerosos gases em debandada,em brincadeiras de criança
agora migração de incontáveis lágrimas
pássaros tolhidos
reféns em afluentes de comoção

o acidular de dor num pomo enrugado
o mundo agora é deserto

estes dedos nus
outrora envoltos em vida
na vida ,filigrana de vida
sem o terno crepitar do teu cabelo
nus de vida

leva tempo a amar-te ainda o tempo suficiente.

 

 

Um madrigal

O amor deixa-nos febris
não há nascente ou poente
um sono agitado feito gente

um corpo celeste num suspiro retido
o roçagar da recordação
um escoar de vida a narrar o sucedido

a carne viva de memória
um corpo vivendo entre mundos
a alma recorda incessante a mesma história

laminado pelas linhas da tua tez
desenhar de memória
até que o destino te leve para longe de vez

deste amor de Verão assim despojado
será isto viver
figurante num longinquo bailado

num fulgor a ditosa consternação
o desamparo
arrastado em turbilhão

perpetuado maquinalmente
em páginas e páginas
quem sofre assim ,não ilude ,não mente

um gesto ma recorde
uma arma me acorde
um efeito contra - indicado me leve
e tudo termina .

Mas nunca, nunca, deixarás de ser ...
a minha menina.

 

 

O momento onde tudo ganha vida

«O meu amor por ti não é real»
Podia mesmo,mesmo, ter acontecido
mas não.
A busca do momento
aquele em que as horas eram de graciosidade
os instantes prolongavam-se vividos em ti
deram lugar à luz sem cor ,a sombra sem aroma...

O momento em que morri,acérrimo
observo o ritual,tingido
as àrvores já nuas ladeiam cerimonialmente
faço o resto do caminho a pé
na mão a mala ,de relance persegui todos os carros fúnerários
e vivi todas as vidas .

e quando me preparava para transpor as portadas
vestidas de cor de malva .
A aurora chegou ,a cabeleira ardente
o acordar derradeiro,lado a lado
o momento onde tudo ganha vida
a vontade indómita de me matares uma vez mais.

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