A Garganta da Serpente
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Palavras

As palavras têm mais poder do que imaginamos.
Com uma simples palavra, podemos iluminar o espírito de uma pessoa, podemos matar uma pessoa, podemos fazer chorar uma pessoa.
Uma palavra pode ser doce como o mel, deliciosa como o chocolate, dura como uma rocha, maravilhosa como o mar, grande como o céu, luminosa como o sol. Há palavras que fervem dentro de nós. Há palavras grandes e pequenas. Duras e moles. Escuras e alegres.
Pode formar um verso. Pode ser muitas frases, construindo uma história.
Podem ter caras. Certas palavras saem melhor das bocas de lábios carnudos. Há palavras que não nos saem da memória. Há palavras que não conseguimos deixar de repetir. Há palavras que são perfumadas, dependendo de como as proferimos. Há palavras em que só desejamos mergulhar nelas.
Há palavras que formam a nossa pessoa.
Quem somos.
O que somos.
O nosso nome.

 

 

Sacrifício

Espetar agulhas no céu não te é difícil
Esfolar a pele do oceano também
Julgas que és o fruto do mundo
Enquanto que o que tu realmente és
É uma fechadura fria e enferrujada
Não deixando ninguém entrar para o teu odioso mundo

Os teus lábios dançam
Enquanto eu os tento imobilizar
Teus olhos derretem
Quando os tento aquecer com a minha delicada presença

Porquê, pergunto eu
Tu me tocas com o olhar
Quando sabes
Que eu morro a cada minuto que assim o fazes

Agora a minha única alegria é a dor
A dor que tu e ela transmitem sem saber
Em vez de plantar em mim rosas
Planto sangue
Que me foge correndo para o teu corpo sem te aperceberes

Cubos de gelo derretem dos meus olhos mortos
Eles me demonstram o espelho que nunca tive
O espelho que te reflecte a ti
Mas que só eu o consigo ver

Este é o teu crime perfeito
Sem ninguém te reconhecer porque és transparente
Sopras uma vela quando eu a acendo
Não me deixas ser iluminada
Só pelo meu ódio que te cegou a ti e a ela

Cada vez mais vou ficando sem cor
No mundo que não me pertence mas a vocês
Tu tens tudo
Para mim és tudo
Quero te ouvir dizer
Que o que desejas é pertencer ao meu mundo
Primeiro terás de morrer
Porque este meu mundo de vivo nada tem

Quero-te ouvir dizer
Que me irás curar deste pesadelo
Pesadelo esse
Que é teu filho

Quero que me deixem em paz
Mas no fundo não quero
Quero inchar de dor e desespero
Quero morrer perante os vossos olhos
Querendo ouvir-te a perguntar:
Será que morreu por me amar?

Sem uma manhã contigo me custa passar
Não consigo viver sem ti
Mas se continuar a transportar-te no coração
Morrerei
Pois nem um coração aguenta tanto amor assim

Os meus cabelos se transformam em raios
O meu corpo em metal duro sem sentimento
Transformaste-me num monstro
O monstro que se escapou da prisão do teu interior
Não me culpem pelo o que me tornei

Até agora e sempre
Sacrificarei tudo de mim por ti
Até ficar vazia
Sem osso, carne ou sangue

Tenho fé no que mais desejo
Por isso nunca irei desistir
Não desistirei
Mesmo que acabe comigo
Meu sangue te irá transmitir a mensagem
A vingança é um prato que se serve frio.

 

 

Revolução Da Dor

Crianças de mãos cortadas                                            
Rios sangrentos
Vestidos pelas almas pobres e infelizes
Pés esgotados
Caminhando para a felicidade
Cada vez mais longe está
No meio de paredes glaciares
Orelhas reviradas pela dor
Surdas de tantos gritos
Gritos terríveis que não terminam
Lábios foram recortados das bocas de várias mulheres
Embebedadas de sangue por amar quem as faz sofrer
Céus foram envolvidos pela escuridão eterna
Matando quem vivia da luz
Pessoas vestem-se de pirilampos
Para iluminar este mundo já tão destruído
Mas sem êxito
Lâminas se espalham pelas estradas
Para fazer feliz quem não sabe outro caminho
Há sangue por todo lado
Uma revolução da dor
Pessoas matam
Pessoas sofrem
Crianças desesperadas correm pelos pântanos
Através de monstros e areias movediças
Na esperança de encontrar o lado vivo do mundo
Esgotos e buracos enchem-se de ossos e veias de todas as cores
Como se fossem sopas de graça para alimentar os desafortunados
No âmago das prisões ocultas
Desperta o silêncio do medo
Os corvos sagazes
Vão-se alimentando do que resta da população
Malditas horas de vida
Que foram desperdiçadas por nada
O que provocou toda esta revolução terminando com a morte do mundo
Fora um sentimento de dor
E esse sentimento de amargo sabor
Chama-se o AMOR.

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última atualização: 24.07.08
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