A Garganta da Serpente
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Poeta Louco


SEM TÍTULOS I

Ah, se eu me libertasse do casulo
Que os meus sentimentos repreende
Se eu com uma faca ou lâmina cortante
O cortasse e me visse livre
E à áurea vida planejada
Eu tivesse acesso e me divertisse
E gozasse dos prazeres cárneos...

Estaria morto, mas já vivi bastante...
E talvez na morte, me encontre vivo
Pois na vida me encontro morto!
 

Eu preciso

Eu preciso de uma namorada
De uma nova morada
De que me ame a minha amada

Preciso de alento
Que seja falso
ou verdadeiro
Que seja o penúltimo
Ou o derradeiro
Que me seja útil...
Que me dê força
Para a vida
Ou para a forca
Que me alerte
Ou me enterre
Que me motive
A algo que nunca fiz...

Preciso de não precisar de alguém
De que os outros não precisem de mim
De na precisão encontrar um SIM
E de negar esse SIM aos outros

Preciso enfim,
Do contraste eterno em que vivo
De pesos e medidas sem teto nem piso
De regras gerais pra cada um
 
 

DOIS "SONETOS"

Vivo nesta passagem agônica
A respirar defuntos decompostos
Que os terríveis seres saprófitos
Amaram de forma antagônica

Produto dum DNA malfeito
Vivo posto na fraqueza orgânica
Que me fere o rosto e o peito
- Podre fruto desta fusão gâmica

Não haverei de completar o ciclo...
Nem de fundir o meu ser da descendência
Com o seu e pra gerar tamanha demência

Sem mais nada pra contar nesse soneto
E já se findando este último terceto
Não digo nada pra rimar com ciclo.
 

Abominável criatura, jaula do ódio
Juiz que só sentencia à amiga morte
Tantas vezes caído no vício do ópio
Corpo sangrento como um corte

Fusionismo trágico do sul ao norte
Que amadureceu para a derrota
Toda malícia que esse ser comporta
Não há de se acabar até a morte

Que poeta louco a se descrever
Usa esse artifício: o maldizer
E espera dos outros compreensão?

Não me esqueci de dizer que tenho sido:
Um triste espermatozóide crescido
Esse sou eu, vocês, quem são?




SOBRE O MESMO

Em companhia da solidão calvarial
Debateremos serenos, a Criação
Diremos bem alto, sim, então:
Até o Senhor falhou na trama neuronal

Que farei pra perdoar o imperdoável
Papel este que Vós bem faz
E eu saio-me, como sempre, bem fugaz
Na minha omissão tão deplorável

Merece a biosfera tal castigo?
Será que um erro Teu arruinou vida terrena?
Criaste o Homem, Tu és o maior pecador

Nesta vida ninguém encontra um só amigo
A nós Homens,  coube a imagem mais pequena
Julgam-nos pecadores;  a Ti, O Salvador
 
 
 
 

PECADORES

Nesta profunda maldição estou eu posto
Figura tenebrosa é o adultério...
Mereço eu ir ao necrotério
Ou viver doravante no desgosto?

Sentimentos entorpecidos precipitam
Somente êxtase nos corpos nus, afoitos
Ousaram iniciar o triste coito
Esses dois filhos Teus, não mais Te honram

Arrependido estou, Mestre Divino
Pelo Teu erro hoje estou pagando
Criaste o Homem: erro grosseiro

Estou, bem agora, me despedindo
Vou pagar meu pecado, que é tão profano
No encontro final com o coveiro


 
 
 
 
PROCEDÊNCIA

Filho da incompatibilidade
Que na placenta já sofria
Imaginando a orgia
Do seu País sem eqüidade

Chegou a sentir nojo
Ao saber a procedência
E a carnal influência
Da estrutura física do corpo

Deus não criou o Homem à sua semelhança...
E se o fez cortou-nos a esperança
De um dia purificar-nos...

Pois sendo assim, não há verossimilhança !
À nossa feição não há bonança
Nem Puros para salvar-nos

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última atualização: 06.10.08
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