AMANTES
Cada parte que nos compõe
Propõe ao universo
Um verso novo
A ser compreendido.
Já não penso
Em me reencontrar.
Entreguei-me à este intenso
E aliciante mar.
Não mais me pertenço
Sou parte de teu viver
E já não sei viver
Sem teu amor,
Sem te amar.
Meu indefesso desejo
Transi o teu inconfesso pejo,
Regendo o prelúdio sem pudor
Do cabalístico ato do amor.
Tua pele em chama;
Teu cerne que floresce;
Teu âmbar que se derrama;
Tua carne que resplandece.
O açoite dos corpos
Ungidos pelo cálido suor.
Pêlo e pétala envoltos
Por algo inexplicavelmente maior.
Então, num aurifulgente instante,
Caímos rendidos pela vitória de ambos.
Selamos um cenário sem escombros,
Pois somos tudo, sendo amantes.
LEMBRANÇAS
Caminhando à orla da praia
- Tendo às costas do futuro o sol -
Vejo tudo que se esvai
À face externa deste arrebol.
A aura tépida
Esfaz o itinerário,
Extingue a pegada:
Letra sem vocabulário.
Mas, a sempiterna via
Resiste à força do vento;
Resiste à sempre terna magia.
Que se enlaça ao tempo.
Tempo que a tarde arde
Por passos ébrios,
Esquecendo os próprios signos
No sonho que ,mesmo à deriva ,não se perde .
PERMITA-SE AMAR
Deixe este seu desejo
Explodir à luz do horizonte.
Deixe seu querer ardente
Violar o padrão moral em sua fonte.
Deixe este seu sobejo de vida
Virar a noite lívida
Com o açoite de seu raio
No bojo deste claustro.
Castre todo e qualquer receio.
Entregue-se ao coração alheio,
Feito aljôfar que desconhece o espinho
E escorre sem a luz de seu destino.
Impeça as palavras da razão
Silenciando-as com um beijo de paixão.
Deixe todo o afã invadi-la ,
Aquele olhar clandestino tocá-la,
Aquele espelho inverso amá-la...
Não deixe de ir, nem tente voltar;
Perca-se na vida para no sonho se encontrar.
Permita-se amar...
VERSOS À UMA ROSA III
Antes do crepúsculo, lançarás tuas pétalas
Arfantes ao sabor das ondas
Que pulsam em teu seio.
Este teu raro alabastro - alma de teu mar -
Me dará a certeza sólida
De tua guarida;
Toda coragem
Que só a aragem - brisa de todas as horas -
É capaz de carregar.
Antes que a noite traga o silêncio,
O tempo que te contempla
Me completará...
Teus olhos serão meus olhos a tocarem a tua realidade
E teus sonhos serão os meus a percorrerem nossas veias,
Vidas alheias tornar-se-ão harmonias uníssonas.
E, então, um sentimento
Irá ferir o peito,
Deferir ao coração
A possibilidade
Inelutável da dor
E a realidade
Inimaginável
Do amor.
PATRÍCIA
O sol que se renova
A cada momento de vida
Te dará a luz prometida.
A alvorada conhecerá à ti,
Semente nova que arde,
Fecundando a dádiva que te precede.
O vento
Domará o tempo
Preciso, conciso, inciso
Ao teu ato:
Perfeita forma que se compõe
E, destarte,
Se completa.
Dará o teu cenário,
Teu papel sem itinerário,
O quiçá
O que virá
Dentro do espaço que te cabe,
Que te sabe,
Que se abre aos teus intuitos
Ao fortuito futuro que teu será.