A Garganta da Serpente
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Eu tenho uma aura negra
Que minha face alva esconde.

Sombrio, quem entra em meu bonde
Dele libertar-se-á somente a prega
de teu corpo molemente morto.

Ruga, que chora tua enrugada face
O teu sorriso velho ficou torto.

O tempo de ampulheta é um enlace
que a fina areia que escorre encrava.

Laçado pelo tempo que ainda escorre
A tua alma de garoto que falava
docemente, cedo ou tarde no tempo morre.

Ainda dócil e silvando, Oh doce juventude
que a vida inteira goza num instante
hoje vive em plenitude, amanhã morre em quietude.

 

 

Ali abaixo da palmeira, apaixonado
Um pássaro, um pássaro azul
Canta, docemente ele canta
Canta tão bonito que me encanta
E a palmeira belamente inerte
Acolhe tão belo canto
Sozinha em seu mundo de pranto
Agônica, invejosa, tristemente inerte

 

 

Quando chega o tímido outono
Em seu túmulo branco e marmóreo
O céu sobre o belo campo arbóreo
Vai se enterrando em etéreo trono

Pássaros que ébrios sobrevoam o prado adormecido
Em folhas coloridas vão derramando suas agonias
E as árvores da estação desnudando-se são demônias
Que dançam pelo melancólico cenário falecido

Lagos e lagoas que abraçavam a doce alvura dos patos
Laminam em seu espelho a morte em folhas anunciada
Lagos e lagoas todos mortos já não abrasam nem os ratos
E a vida melancolicamente vai definhando sua doce risada

Outrora havia neste campo um verde belamente intenso
Com suas garças que pousavam no lago margeado pelo viço
Agora lúgubre este cenário de vida esvaído e todo quebradiço
Causa náusea na velhinha solitária que sentava-se em seu gramado vivo

Ali naquele galho desnudado e agônico há um carcará pútrido
Morto e dependurado em galho outonal mais morto do que ele
Num Sol do passado fora o fedorento carcará um cisne vívido
Que tinha uma crista alva e laboriosamente adornada em neve

Ah! Fantasma outonal! tu és a morte em minhas tristes pálpebras
Tu és o meu rancor que de meu peito decaído pulou tristezas
És um ente natimorto que habita à séculos o homem e suas nobrezas
És o galope dos senhores que morrerão como assustadas zebras

 

 

Os sinos da catedral badalam
Aos domingos cheios de fúria badalam
Anunciando a longa missa
É... mais uma vez haverá longa missa

Compulsivamente os badalos cantam
Irritantemente cantam seus dogmas
Arrastam do lar o senhor Tam-Tam
Que vem trajado e cheio de gomas

O relógio da praça já marca seis
E os sinos cansados ainda badalam
Tristemente eles ainda badalam
Esperando parar e começar outra vez

Lá no alto do elevado campanário
O frei corcunda badala, badala...
Como se fosse um escravo de senzala
Talvez sonhando ouvir o belo canto do canário

O senhor Tam-Tam sentado próximo ao altar
Reza, inconsciente como os sinos, reza
Orando a sua agonia, incrédulo, reza
E os sinos também incrédulos não sabem rezar

A missa chega ao momento do evangelho
E na mente dos fiéis os sinos badalam
Ensurdecem os espíritos, os abalam
Destronam a beatitude do Santo já velho

Os sinos badalam... Os badalos se cansam
Deus furioso se retira e as almas não dançam

 

 

Savanas! Mundo das savanas!
Sob dourado Sol de veraneio
Luzente campo sem cabanas
Muita luz há em teu permeio!

Bem ali onde corre o veadinho
Há também uma leoa sucumbida
É... ali a fera desmaiou sua vida
Cansada de perseguir o veadinho

Sol, radiante senhor das luzes
Que dia a dia prepara a cruz
De cada espírito íntimo da luz
A leoa era o mais belo feixe de luzes

Oh, Veadinho! Não chores a morte
O triste sono da leoa assassina
Ela te queria carnear a sina
Mas teu astuto espírito foi mais forte

Como é bela a leoa adormecida
Mesmo de vida esvaída
Ainda nela há se um lampejo
Ali nas pálpebras eu vejo

Fazemos, havemos de fazer
No coração da imensa savana
O mais luzente dos jazigos
Onde dormirá pra sempre
A bela leoa e seu desejo
O eterno veadinho.

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última atualização: 29.08.08
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