Corpo
Fazem-me falta,
Toques de silêncio das tuas mãos
No meu peito.
Invisto neste sentimento
Que na maré alta resisto
Cinzento, de cansaço, de ausência.
Onde estão essas coisas?...
O que tive...
Perdi e perdido
Despido
Como qualquer mendigo.
Faminto, faminto de ti
Que estás algures
Onde não te encontro.
Tantas fantasias,
Tantas relutâncias... Quem sou eu?
As fileiras estão algures
Nas margens deste pensamento
Que se quebra em ondas vibrantes
De tamanho silêncio.
O que vem agora dos teus lábios?
Qual é o fruto?...
Ah... Descalço aos pés de Deus
Sem vontade na maré dos tempos.
Onde estou?
Falta-me a vontade... Faltas-me tu.
Onde estás?
Sei que estou sempre sozinho
Choro, guardo essa lágrima
para que não se perca no caminho,
sem destino.
Onde se deita a poesia?
Que é feito da maresia?
Estou constantemente à procura...
De quê?
Onde estás?
Vem... Vem meu anjo
Que já não caminho.
Sei que é duro
Estar aqui
Sempre a pensar em ti.
Dói e amargura a ausência
Do pensamento
Que se escondeu, por aí...
Era parte de mim,
Feitiço sem lua
Nas mãos que mendigo.
Choras...
Grito!
Onde estou?
Para onde vais?
O que é isto?
Faminto de sentimentos,
Louco de ausência.
Vem...
Vem depressa
Preciso de ti.
Enquanto Durmo
Uma folha de papel
Amparada pelas minhas mãos,
Berço de criança
Que embalo no tempo.
Qual relógio que não pára
E me desorienta
A fugir... A deixar para trás
A mortalha que me fez silêncio.
Eu queria o mundo
A passar nos meus olhos,
Uma luz vã e serena
Para madrugar os meus sonhos.
Queria tão pouco
E tão pouco recebi...
Desse tempo
Que nunca esqueci.
Fui uma voz embalada
Nesse silêncio que se oculta,
O quanto foi essa figura, bizarra,
Carismática, a perder os dias
sem sentido, sem criação,
sem nada.
Eu visto o frio
O gelo que me estremece,
As palavras dormentes
Que trago
Em rosto de papel
Que escreve o tempo.
O tempo é o silêncio
O puro vazio
Onde quase enlouqueço.
E perguntam-me se mereço...
Não sei... Não esqueço.
Recordo a firmeza desses tempos
Ainda as minhas mãos se elevavam
No rosto do vento,
No soprar incandescente
De um sol nascente.
Consegui ser eu próprio por momentos
Enquanto tive tempo,
Mas o tempo escasseava
E logo se extinguiu o momento.
Que seria de mim hoje
Se me tivesse deixado levar
Pelas razões antigas
Que em berço de papel
Me embalavam
Para viver sem tormento?
Não sei...
Sou gente...
Gente desse tempo,
Foi outro momento
Que nunca mais virá,
E que não sei... Lamento?...
Em Glória Do Tempo
Acordei...
O dia mergulhava
Nos olhares de quem passava.
Imaginei...
Que qualquer fantasia
Ou lembrança de madrugada
Me iria acordar sem esperança
Numa nova alvorada.
E o dia estava vestido em mim...
Todas as faces, os sorrisos, os olhares,
Me recordavam que sou humano
E que ser humano deveria significar algo.
A verdade é que só vivemos de circunstâncias
Não de vozes ou poesias
Ou curiosas lembranças
Dos dias.
Dias que passam sem que os sinta
Que me espelham a alma
Com verdade, uma voz mais altiva,
Mais alegria.
Bato à porta
Do céu eterno que se abre, perante os meus olhos,
Como qualquer criança a acordar para o mundo
Observo, sem saber porque motivo
Estava ali o início de tudo.
Constantemente nas minhas sensações
Essa carência de mundo
Onde sobrevivo,
Mendiguei, mas cresço em tom altivo.
Como o tom de uma musica
A ecoar na minha cabeça
A dizer-me que cresça...
É infinita a melodia
Que me revela o pensamento
Tal e qual o meu rosto
Numa voz de poesia,
Uma imagem, uma fotografia,
Daquilo que é a nossa alma
Onde se esconderam todos os receios
Para dar lugar
Aos mais eternos recreios,
De crianças que somos.
Essa semelhança humana
Onde estamos,
Lugar das nossas recordações...
Lembro-me de deixar para trás
Uma estrada sem caminho
Um copo, cheio... Cheio de vinho,
A embriagar os sonhos e esperanças do meu destino.
Acordei...
Sóbrio, com um caminho,
No meu passado desconhecido.
Quero apenas vida...
Quero apenas os dias...
Quero recordar-me do sonho,
Seguir em frente
Saber que estou aqui
Para ser alguém no mundo.
Dias, Paisagens, Crianças...
Um espelho... A minha face.
Retrato, rosto, aparência,
Subtileza, glória, decência.
As escolhas são perfeitas
Quando a madrugada me inunda
Numa manhã sorridente.
Acordo... Com a magia
Num novo rosto,
Porque parece
Que ainda existe um caminho
Para caminhar.
Fico sem palavras,
A pensar, a meditar,
Sobre tantas incoerências estranhas
Que navegaram a minha vida
Nesse barco sem fundo
Que se afunda, inunda,
Nesse momento que foi distante
Que é mentira.
Eu posso ser o que eu quiser
Pois eu sei quem sou.
A fortuna
É a voz com que vivo
O sorriso com que me visto
E a dor é um passado de lágrimas
Onde já não insisto... Desisto.
No meu mais profundo pensamento
Da substância do ser
Crescer...
Esta é uma forma de vida
Uma forma que moldo
Como qualquer escultura, fotografia, poesia,
retrato meu...
Esta é a minha vida
O que eu escolhi.
E volto ao mar
Para beber a maresia
Ser mais puro, viver sem melancolia.
Estou aqui...
Não perco o rumo
Porque te tenho a ti... Alma.
E o meu espírito vagueia
Contornando todas as redondezas
De uma palavra serena
De um rosto novo.
O meu.
E eu sei...
Eu posso ser aquilo que eu quiser
Quando quiser.
Levanto as mãos
Num gesto irreal,
De joelhos no chão
A descobrir-me, a encontrar-me.
Eu sei...
Existem palavras para explicar,
Palavras que eu não sei recitar
Palavras desse mar...
Agora só me resta um rumo...
Amor... Que futuro?
Vida... Que destino?
Eu sei...
Esperar nunca foi perda de tempo
ou estar superficialmente ausente,
Esperar... Acordou-me,
Tal qual conto de fadas
Nas mãos de marinheiros
A vestirem o mar
À procura de um lar.
O dia... Ainda adormecido
Diz-me que sim,
Que posso sonhar
Mas que a vida não é feita de sonhos
E que mais verdadeiro é o que sou.
Mais tarde,
Talvez esse sorriso
Que deixei para trás,
Se aproxime de mim
E nunca mais se vá embora.
Eu sei...
Fui eu...
Fui eu que me perdi.
E os meus olhos estão bem abertos
E procuro verdade
Em todas as estruturas
Não corro riscos,
Amadureço, cresço...
Aqui,
No lugar onde permaneci
\" Mundo \".
E eu sei...
Eu posso ser o que quiser
Quando eu quiser.
Chamado à Razão
A chuva amacia os meus pés,
Descalços, em paz,
No caminho.
Grito ao mundo,
O meu mundo de mil cores
Onde andam sentidos
Misteriosos sonhos,
Que me eram queridos.
Tenho saudades de ti...
Lembro-me,
Quando a magia era desmedida
Na adolescência que vestia.
Eu era o teu rosto,
As tuas palavras, o teu coração,
A vida da tua vida.
Vida!...
Tenho saudades de ti...
Porque te ausentas e não voltas
Me deixas em calcorreado terreno
A beber o céu.
Vai-se, essa magia,
Urge como o tempo
Na minha melancolia,
Carente de vento, carente de sentimentos,
Ausente de ti...
Vida!...
Tenho saudades do que vivi...
Anseio por acordar com novo rosto
Porque o tempo que passou
Já é demasiado
E eu continuo sem mudar o meu caminho.
Folgaria em ouvir-te neste meu silêncio,
A chamar por mim, a dizer o meu nome,
A recordar-me, a encantar-me...
Vida!...
E estás tão perto... Tão perto de mim.
Exploro os momentos
Em que mergulhávamos na noite,
Onde tudo fazia sentido,
Onde trocávamos fluidos
No ondular que rasga o mar
Em abraço intenso,
A namorar o luar,
Na brisa suculenta das estrelas.
Essa magia... A eterna e incandescente magia.
Já não somos como éramos
E crescemos com o tempo
E lamentamos coisas que fizemos
Para nos trazer a este momento.
Recordamos o que tivemos...
Vida!...
Perdeu-se tanto...
Perdeu-se tanto de mim.
Tenho saudades de ti...
Vida!...
Trago a mim as lembranças
De quando me deitava nu
Sobre os telhados,
A fotografar as estrelas com os olhos,
A sonhar acordado, a sentir o momento
Em que por mim chamarias.
Vida!...
Mas vou vivendo
A ritmo silencioso e calmo,
A guardar a tua ausência
No meu mundo maravilhoso de sentimentos,
Onde para sempre permanecemos.
Vida!...