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AINDA HÁ
Ainda bebo poesia nas noites mal dormidas.
Ainda como margaridas.
Ou margareths atrevidas...
Ainda respiro teu suor.
Ainda acredito no amor...
Só não penso mais em córregos.
Prefiro correr lado a lado.
E me sentir saciado com esses olhos e essa boca.
Minha língua é portuguesa, africana, espanhola...
Mas ainda bebo poesia.
E ainda faço a minha hora...
DOCE TESÃO
E que o sabor das uvas
seja agora o teu beijo.
Tuas mãos, minhas pernas.
Tuas pernas, minha cama de pregos
pra que eu seja faquir do teu corpo.
Que a tua saliva me afogue todas as noites.
Que meu hálito infeste o teu.
E que teus gritos e gemidos
estremeçam o coração das pessoas.
Que o nosso gozo seja um só,
como sangue de mãe e filho.
Que a tua vida possa explodir
em raios de cores inexistentes.
Que nossos passos ganhem sentido a cada momento
e percam o sentido a cada encontro.
E que a cada manhã
minha felicidade dependa da sua...
Que desmoronem castelos.
Que virem festa os velórios.
Que desapareçam demônios.
E que eu encontre em teus seios
o acalanto divino do cosmos.
Que fêmeas possam ser machos
e machos descubram a feminilidade.
Que a idade não conte.
E que a morte seja ponte
para os prazeres celestiais.
Que meu toque
seja um choque de alta tensão
pra queimar amarguras e dores.
E que flores
se espalhem pelo mundo eternamente.
Pois ser como a gente vai virar uma lei,
onde rei e rainha
comerão com os súditos...
Que eu morda teus flancos
com um carinho felino,
pra que a cada noite
eu possa ser teu menino.
E abarrotar os teus sonhos
de orgasmos futuros...
Que você se perca em meus pêlos.
Que experimente meu néctar.
Que se limpe com minhas bênçãos.
E tenha em seus ouvidos
meus constantes sussurros de amor.
Que eu possa te banhar nas fontes de sabedoria
e sugar teus pensamentos sobre nós.
Que você me ache no teu nome e me chame assim.
Que eu me rasgue de alegria
e que você se vista de cansaços passageiros.
Que as expressões do meu rosto
possam espelhar o Deus que você não vê.
Te livrar do marasmo.
Te levar à uma loucura sadia
e te arrancar das entranhas uma linda oração.
Que a gente se cace por todo o planeta
nas luas de outono.
Num doce tesão...
POLILINGUE LEMINSKY
O homem ali.
Vernáculo em pessoa.
A palavra paroxítona
que nunca foi batizada nas águas do Jordão.
Um vulcão poético.
Atônito.
Às avessas.
Parte de uma indiada,
mas imperioso como um fonema japonês.
Talvez engajado em uma oração subordinada,
ainda que maldito aos olhos canônicos.
O sonhador assindético,
de pulmões e garganta transitivos.
O esforço silábico da prosa caótica.
Um nome apostólico.
Uma interjeição de bigodes.
O tipo de sujeito existente,
como os hai-kais.
Possuindo todos os predicados de escriba,
era um homem que criava em gaiolas o bicho alfabeto de vinte e tres patas.
Tomava chá com Bashô.
E era sentimentalista,
apesar de ser um samurai mestiço de Curitiba.
COISAS SUBMERSAS
Os matizes das águas
que invadem minha vida,
são enormes aquarelas.
Como aquelas do pintor em anonimato.
E de fato essas poças, muito moças,
brilham mais do que as noites
de um verão de adrenalina.
A menina bronzeada.
Mil carros na calçada.
E as luzes refletindo.
Repetindo o mar batendo.
Refazendo a chuva forte
bem mais rápida que a sorte
de um dia virar rio.
Sem o frio dessa água descendo lá dos céus,
rasgo os véus dessa rotina idiota
de bater de porta em porta
pra pedir felicidade.
Nessa idade que já tenho
qualquer água já me serve
pra beber com os amigos.
São Rodrigos e Renatos
em retratos frente ao mar.
O luar. O nadar de madrugada
pelas águas infestadas
de piranhas tão sinceras.
Aquarelas, essas águas misturadas com saber.
Com o fazer do dia a dia a estranha maravilha
de sorrir pra não chorar.
De lutar pra não partir.
De parir pra não matar.
De mergulhar e ser siri.
De ser sem ir e não voltar.
CONTATO
CONCRETO-CAÓTICO
DAS ÁGUAS
Ondas.
Andas.
Rio, mar. Indo. Ando.
Paro. Poro.
Pororoca.
Oca. Cara. Um cara no rio, indo pro mar.
Pro escambau com a métrica, a retórica, a ótica medíocre.
Águas e chuvas. Turvas. Luvas de borracha e o plexo.
Sem nexo, ando. Indo pra longe, rio adentro.
Relento, rebento das manadas, das anáguas da mamãe.
Agá dois ó.
Baldes. Se esbalde comigo. Come. Umbigo. Perigo
na correnteza. Incerteza. Tesa. Lisa como a pedra d'água.
Poros agora. Fora o gozo, o gozado na canoa.
Sal e doce. Ocre azedo, o teu medo de tudo.
Do mudo te xingar.
Pororoquear. Se molhar no cruzamento. Casamento.
Alimento pra visão. O Clarão desse eterno se encontrar.
Já é mar.
Navegar nunca foi preciso.
Só amar...
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