A Garganta da Serpente
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Nivaldo Lemos
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SAUDADE

Teus beijos ainda agonizam nos meus lábios
como violetas afogadas em um lago de ironias.
A cada esperança desatino:
em parte sou poeta, em parte sou menino.

 

 

AUTOCONTEMPLAÇÃO

Fruta que se desintegra,
tem tudo de poema:
pequenos pêlos, inúmeros cheiros
e uma noite muda
em muda decomposição.
Fruta-bicho desarquitetando a vida
silenciosa dilaceração
saliva, susto, sublimação.

Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?

É tanta melancolia em seu corpo,
tanta ausência em seus odores,
que me confundo no espelho.
Em vez de fruta é a mim que vejo:
catedral vazia de amores,
turva simetria do desejo,
sem rastro, sem porta ou fecho.
Ela e eu apodrecemos no soneto,
fruta-abcesso, bicho-obsessão:
loucas rimas da mesma solidão.

Bicho da noite/mulher,
fada/fruta deflorada.
Que tempo te transfigura?
Que mecanismo te empurra?
Será o avesso do cheiro,
ou apenas tua doçura?

Ah, fruta-favo da aurora,
me comove a tua lugubridade,
o teu adeus sem nome ou saudade.
Há luz? Há escuridão?
Apenas pânico à exaustão,
morna solidão cutânea
mordendo-me sonâmbula de paixão.
Sangue obstinado no poema,
de bicho, fruta, homem
corpo, sono, tesão.

 

 

VERBO HELENA

Noite.
Na confluência dos meus lábios
ainda tremulam vestígios do desejo
que tua ausência me deixou.
Que mistério, essa volúpia?
Em que matéria o amor se cumpre?
De que semente germina?
Que mecanismo o deflagra, como animal no cio,
como as águas de um rio?

Como saber se é amor, de tanta ardência,
de quase grito, de tanta impaciência!?
Amor que se confunde em cheiros,
que mesmo ausente permanece,
amor de gruta e lábios, de ninho e pássaro,
como beijos alados que conduzem
a brisa, o vento, a tempestade,
e que, depois, lindo, me dorme e me amanhece...

Ah, amor,
Essa tua umidade orgânica, subterrânea,
como um gosto dolorido de dança, grito, festa,
seio, chuva, gozo, fogo, paixão, afago,
que me alucina as mãos e me franze a testa,
é a própria condição de fêmea, que amulhece no meu corpo,
se fazendo verbo no presente do amor,
no futuro do infinitivo de teu nome,
Helena.

 

 

PERFIL DA PRIMAVERA

Marinheiro das estrelas absolutas,
eu me afogava no crepúsculo invisível das estátuas,
sonâmbulo tronco, como o ventre da última colmeia,
onde meninos inventavam o mundo,
entre o doce pânico do mel e o violino das abelhas.
Na paisagem de minha solidão lunar,
apenas o arco distendido das angústias.

Mas entre os corpos e a dança silenciosa,
o relâmpago de teus olhos serpenteou no infinito dos meus,
acordando as pálpebras assustadas do desejo
que brincavam na cereja púrpura do Campari,
como duas abelhas embriagadas.

Eras uma fogueira de jasmins incendiados,
como as espumas comovidas do oceano,
onde eu colhia o vinho, o trigo,
a rosa marítima de teus beijos.

Mas que anjo mágico ou pássaro planetário
esculpiu teus seios como quem inventa a febre,
o fogo, o lírio, a asa nua do prazer?
Que mecanismo fez teus lábios flor de açúcar,
gota de aurora, brisa vertiginosa das salivas?

Ah, abraço teu corpo como quem abraça a primavera!
Recebo teus beijos como quem desfruta estrelas!
Estranha geografia do teu corpo,
em cuja pele habitam borboletas incendiadas
e onde os anjos açucarados das maçãs
fabricam a saudade a cada ausência,
como quem recolhe o perfume amarelo das laranjas:
entre a solene poesia e a infância transitória do silêncio!

Ah, Helena!
O meu desejo é como um lírio acorrentado à lua,
à espera da bailarina ninfa do teu corpo,
como um pássaro enamorado pelas nuvens
que descobre no infinito das manhãs
a pele macia da aurora nua.

 

 

TRANSMUDAÇÃO

Houve um tempo em mim
em que a solidão, de tão vertiginosa,
parecia submergir na espuma votiva do silêncio.
Tempo em que me cabiam a imobilidade das pedras
e o choro comburente dos jasmins.

É preciso hoje te falar daquele tempo,
quando o que me incandescia, antes do fogo,
era deserto, como o bico feroz do esquecimento,
que, de tanta ausência, fabricava na espera o antitempo.
Mas, como a dor é sempre o parto em movimento,
um dia floresceu em mim o corpo nu da esperança,
como se um adocicado cacho de abelhas
reinventasse, na tristeza, a alegria,
no amor, o alimento.

Foi quando descobri o gosto de tua boca,
tua viçosa luz, essa transmudação!
Só então percebi que as línguas tinham sinos
e que os beijos, além de tudo,
eram crianças trapezistas,
como pequenos anjos bêbados
equilibrados ao som de violinos.

Obrigado, amor, pela doce desordem de tua língua.
Obrigado pela loucura justa dos teus seios.
Por teus beijos - poemas em desespero.
Por tua respiração arfando - terno murmúrio de esperança.

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