|
TEU RETRATO
Hei, para sempre, de guardar o teu retrato,
para que eu possa reviver a mocidade,
a doce sombra de um fugaz sonho abstrato,
uma quimera agasalhando a soledade!
Hei de guardá-lo com carinho e muito trato,
sempre carpindo esta saudade que me invade.
Uma saudade a qual, porém, sou muito grato,
por tanta paz, por tanto amor e lealdade!
E quando um dia, já todo roto e amarelado,
calar-me o peito num soluço entrecortado,
hei de chorar por este imenso amor profundo...
Fenecerá flor - eu sei- mas a semente
há de ficar, brotando n!alma eternamente,
pra renascer na doce luz de um novo mundo!
CANTIGA DA SAUDADE
AH! morena, morena do meu cantar!
dos cabelos prateados,
dos olhos amendoados,
minha gota de luar!
Que é do teu colo mimoso,
daquele corpo cheiroso,
que à rosa fazia invejar!
Ah! morena, morena do meu cantar!
dos seios candentes, arfantes,
dos lábios rosados, vibrantes,
meu pedacinho de mar!
que é do teu jeito infantil,
daquele olhar pueril,
que eu sonhava encontrar!
Ah! morena, morena do meu cantar!
do sorriso alegre, trigueiro,
do rosto macio, fagueiro,
minha Musa secular!
Que é da face serena,
daquela flor de açucena,
o meu jardim singular
Ah! morena, morena do meu cantar!
dos cabelos prateados,
dos olhos amendoados,
volta outra vez a me amar!
PARTIDA E REGRESSO
Parti, deixei meu lar e meus amores,
meu casto berço- a nupcial guarida;
levava n!alma amortalhada a vida
entre soluços e pungentes dores...!
Longo tempo se passou; outra partida
fiz em busca do lar, rever as flores,
o bosque verde, prenhe de frescores
e ouvir da fonte a nota enternecida.
Cheguei... meu peito trespassou-se em mágoas!
Da fonte, o triste murmurar das águas,
mais vibrante cortava a solidão!
Do lar, do bosque e flores que deixei,
nem cinzas mais... apenas encontrei
uns fragmentos de infância pelo chão.
|