A Garganta da Serpente
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Nel Meirelles
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dry martini

nem muito seco
nem extra doce

somente
o ponto exato
do que você quisera
que eu fosse

 

 

serial killer

caço poesia
mato versos

os que
me escapam
jazem aqui

dispersos

 

 

Melancolia

domingo frio
a chuva toma banho de mar
na praia cinzenta

no banco do carro
parado
vagueio
entre o cd do Renato Russo
e a vontade de dormir
ver filme de Fellini
ou ouvir La Traviata
pela enésima vez

vou pra casa
me enoja o non-sense
do apresentador gordo
da TV
percebo a inutilidade
do livro amarelado
que esqueci ontem
aberto sobre
o sofá vermelho
desmaio
restam em cima da mesa
as cartelas vazias
do anti-gripal
e a melancolia
da foto
gasta
de tanto olhar

 

 

Dualidade

vivo entre os versos que escrevo
e as notas da canção
que se espalha
com o vento morno da tarde,
como luz de luar se banhando
nas águas da Baia da Guanabara
vista do Aterro do Flamengo
quando vagueio pela madrugada
no meu carro ouvindo Caetano.

vivo entre sonhos e verdades,
entre nuvens esparsas
que pairam sobre esse meu céu particular,
esse pedacinho mesmo que fica aqui,
em cima da minha casa,
e que visito todos os dias
por entre os ramos
da mangueira carregada
de frutas e de sonhos.

vivo entre o rubro do meu peito
e o negro da noite,
compondo o rubro-negro
da minha paixão de bola.

vivo entre ser ou não ser
poeta e músico,
entre cantar uma canção nova
ou reentoar aquela do Beto Guedes
que ilumina os rios de Lumiar.

vivo intensamente cada instante de luz
e amo plenamente cada estrela
das minhas madrugadas insones.
vivo. renasço.
morro. cresço.
esqueço. reaprendo.
sou dualidade perene.
assim. solene.

 

 

Violando

meus dedos encurvados
traçam notas e canções
nas cordas tortas
do violão,
ecoando nas suburbanas noites cariocas
qual esparsos pirilampos
espantando por instantes
a escuridão.

cordas e notas,
canções e estrelas,
tudo misturado
misturando tudo
enquanto pessoas passam
apressadas e sem destino,
qual pequenas lesmas se arrastando
no meio do nada.

arremesso sons
ouvidos moucos.

meus dedos dançam
nos trastes de bronze
e me perguntam
se eles te tocam
como acariciam estas cordas.

virtuoso
ou amador
nos segredos
dos teus sons
e no silêncio intrigante
das tuas canções,
toco e toco de novo
buscando respostas
caçando sonhos
bebendo ilusões
violando tua alma
com uma canção do Cazuza

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