A Garganta da Serpente
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Nadia Duarte


Ser rato

De um buraco o rato espreita, cheira, respira no ar um
certo tremor
Sabe-lhe a nervosismo, fica inquieto
Algo o espera, um velho perigo
O buraco é conforto, não sai, sente na pele ainda
macia as garras do inimigo
E por lá fica todo o sempre!
Pobre rato no buraco prisioneiro de si mesmo
A casa vagou há tanto tempo e a dona levou o gato
consigo!

 

 

De madrugada

Descobres-me sem cor, espelho de um ser sem tempo
Tão engolido o tempo foi
Vagueia o meu corpo por aí
e sem querer
Caem dos telhados cinzas frescas
A juventude arde perde os olhos para dentro
As palavras que dizem que me comem sem amor
Palavras que do fundo da garrafa gritam
E afagam um dom menor

 

 

Noites vagas

Olhar a meio gás, liquido, com cheiro a combustível,
alcoolizado. Boca aberta num sorriso só, a mente que
ri livre, de si mesma
Num qualquer lugar escuro que a tontura iluminou,
alguma coisa até está certa
E duvida
Ontem, os ontens dos dias que ora se atropelam ora se
arrastam estão sempre longe
Sempre perto de um querer que não quer porque quer sem
querer embrulhado em si mesmo

 

 

E Ela disse...

Gosto dos teus olhos ela disse, gosto dos teus olhos,
dos meus olhos nas tuas mãos
Das tuas mãos perto das minhas, da minha boca perto da
tua
Gosto de ti assim, quando te sinto com a pele da
imaginação.

 

 

As noites no quarto

As noites no quarto, descalços dos trapos, nus corpo
no dorso, rosto em outros rostos
Pele sentida, querida caricia que as mãos sustentam e
alguém executa sem tentação
Mundo que treme que geme ocasião; tonturas frias,
magias mudas, olhos nos olhos depois no chão
E aqueles enlaços ingénuos pecados tocam terraços,
despertam espaços no coração.

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