O Camafeu
A gravidez deu-se em três noites:
na primeira, seduziu-me um vento frio
e afagou-me a nuca...
e pôs-se a me excitar a ponto
de eu me desnudar
e oferecer-lhe o acesso ao corpo
amortecido pelo vinho.
Na segunda, havia um odor de plenitude
impregnando a pele...
e um rosto cansado,
e um desalinho nos cabelos,
e uma umidade, vinda não sei donde,
avançando pelas entranhas
e estagnando o tempo nos lençóis.
Na que por último ocorreu,
pus-me a repartir palco e destino
com irmãs enluaradas.
E entre elas maturei,
barriga-enchente fecundada,
vestida com rasgos de seda
e ornada por camafeu...
Abafadouro
há uma mulher
há uma mortalha
e no topo do andor
uma dor que retalha,
houve fuga de ardor
na antiga fornalha,
um ponto final
um canto de gralha
hoje abafadouro,
antes revoada,
ela apalpa o amor
esculpido à navalha...
e abandona de vez
qualquer coisa que o valha.
Semelhança
Quanto olhar
de riso triste
na vida! ...
O pranto
- sabias ?
segue o rumo
das águas geladas
dos rios do sul.
Benedictus
Quando a gravidez veio de um sopro,
minha mãe rezou um quilômetro de ave-marias
nas contas do terço de cristal colorido.
Não satisfeita, passou a sair todas as tardes,
o Sol caindo por detrás das montanhas.
- Veja, lá vai ela!...
no rastro de um tempo que também se foi.
Equilibra o corpo, dia-a-dia mais pesado.
e visita São Benedito, na igreja matriz.
Pedia muita saúde,
pro bebê forte crescer,
que nascesse bonitinho,
- veja só quanto querer!...
E aquele santo negrinho,
incumbido por Maria
de o Menino proteger,
ouvia tudo calado.
Andava um pouco esgotado
de tanto brincar na festas
que São Pedro, traquineiro,
pedia pra Deus fazer.
Leopoldina
Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
Tantos rios abraçados por moleques pés-no-chão.
Nadadeiras fortes, pensamentos hesitantes
E a tão velha Leopoldina, negra ativa do sertão?
Grandes bacias de cobre no asseio da velha cozinha.
Mãos calejadas, queimadas, no eterno catar-de-feijão.
Quadris medonhos, carnudos, assentados na palhinha,
pés descalços, talvez frios, no assoalho do salão.
Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...
Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
Quantos meninos tenazes mergulharam nas escolas,
seus sapatos ensopados pela chuva e o lamaçal.
E os olhares pensativos, transpondo os limites do sonho.
A professora, os cadernos, o rio sujo e o anzol.
Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...
Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
E o ancião tão sozinho na troca injusta da sorte.
Vai a vida, vem a morte...
E a alma, clamando auxílio,
não propaga pelo corpo todo furor que carrega.
Os olhares são aflitos, ansiosos pelo quarto.
Lembranças passadas no campo, o velho amigo do bar...
Onde ele está que não chega pra morte do velho afastar?
O cheiro da namorada, a colônia de alfazema,
perdeu-se entre o cheiro das flores e o choro das carpideiras?
Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...
E esse mundo já foi de tanta gente!
Louvado aquele que puder abocanhá-lo,
sangrar-lhe a carne, castigá-lo na ferida.
Fazê-lo nos devolver a boa negra Leopoldina.
Seus olhos vermelhos de choro, transformados de alegria.
Suas mãos se tornem macias, graciosos os traseiros,
pés delicados calçando belos pares de pelica.
Aos meninos, retornem as balas.
A nós e ao velho, a Vida!...