A Garganta da Serpente
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Mariana Higa
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Como podes...?

Como podes ter tanta importância...
Como podes sobreviver na memória de tempos tão tolos...
Como podes gozar do gosto das minhas lágrimas....
Como podes ainda correr solitário entro o vento e a morte...
Como pôde sobreviver ao presságio do nosso amor...?

Como se atreves a perfurar as linhas do tempo...
Como se atreves a dizer que meus olhos cegos podem ver...
Como se atreves a entrar no meu mundo...
Como se atreves a fazer-me sentir o que sinto...?

Como podes se atrever a ser o que és...?

Por que olhas para meus olhos...
Por que olhas para o nosso passado...
Por que olhas para a morte...?
Olha para dentro de ti.
Olha para dentro de mim.
Olha para o que não podes mais negar.
Olha para dentro de nós.

Como podes se atrever à olhar para o que deves esconder?

Por que orgulha-se de fazer-me sofrer...
Por que orgulha-se de não amar ninguém mais...
Por que orgulha-se da própria solidão?
Então por que choras...
Por que choras ao contemplar seu silêncio...
Por que choras se teu orgulho esconde tuas dores...
Por que choras se eu estou ao teu lado...
Por que choras,por que choras....?!

Como podes se atrever a olhar para o orgulho que te faz chorar?

(7 de junho de 2001)

 

Nosso mundo

Quando você tocar o mundo com seus olhos
Tudo se tornará parte de sua alma.
Todo o céu que estampa seus sonhos infinitos
morará dentro de você.
E seu coração tocará com as mãos
as estrelas que ouviram você falar.

Mas um dia tentarão limpar seu caminho,
Varrer seu valor,
Roubar os seus sonhos.
Um dia tentarão impedir que você se vá...
Que vá atrás do mundo que ainda não tocou com os olhos.

Mas quando você tocar cada pedaço de estrada...
Sua alma vai crescer.
E o mundo se tornará parte do seu coração.
O mundo se tornará parte da sua busca.
Porque há algo que ninguém pode tirar de você.
Que é a fé de nunca desistir de
fazer parte da alma do mundo.

(28 de agosto de 2001)

 

Minha noite

A noite se arrisca a falar comigo.
Divide seus segredos como se eu fosse seu amigo.
A noite tenta secar minhas lágrimas...
Mas mal sabe que essas lágrimas fazem parte de mim.

A noite...
Tenta vencer o sol para não encontrar seu fim.
Mas sabe que sua morte é inevitável,
E sabe também que quando nascer de novo
não vai se lembrar de mim.
Mas sua curta existência me ensina a ganhar o mundo,
tentando me mostrar todas as montanhas que posso tocar,
todas as estrelas e todo o universo...
Tudo para que eu possa descobrir o que
é a morte e então ganhar a sua inspiração.

Mas a noite é única, ela parte e volta.
Sabe que nunca estarei morta,
Sabe que sempre estarei a esperar debruçada na janela.
Sabe que somos iguais,
Sabe que já não somos normais.
Sabe que fazemos parte do mesmo mundo.

E o céu chora ao ouvir o choro da noite.
E todos olham para cima...
E todos querem saber de quem é a chuva...
E todos querem fazer parte do mundo...
Mas todos se deitam...
Porque a chuva...é triste.

(4 de agosto de 2001)

 

Sem ar, sem lar...

Nem mesmo a lua seria meu lar...
Nem mesmo os jardins verdes da tua alma poderíam me acolher.
Nem mesmo os labirintos da sua mente...
Nem mesmo sua coragem, teu sangue quente, sua vontade de amar....
...Nem mesmo você poderia entender o que é um lar.

Eu moro na sua memória,
em teus passos subliminares....

Engatinho no perigo das ruas crepitantes de fogo...
Eu choro, eu canto, eu deslumbro a escuridão.

Por mais que eu fujo,
Sou eu quem a chuva molha mais.
É em mim que o vento conjura sua ira.
...É em mim que o sol desloca seus sentimentos.
Sou eu,a propagação do mundo e da solidão.

Se hoje eu morresse, jamais teria um lar.
Viveria na memória escura e sufocada.
Sim...você me veria,
Mas eu seria apenas mais uma alma chorosa vagando pelo martírio,
Vítima das soluções que não chegam,vítima daquilo que se chama tristeza.

Deixe-me entrar, deixe-me fazer parte da sua vida.
Deixe-me procurar um lar dentro de você.
Deixe-me contemplar nossos sonhos, nosso futuro...
Permita-me simplesmente morrer...
Morrer amada por quem amo....

(30 de maio de 2001)

 

Os sintomas da noite

Quando a noite lúgrube desce até nós...
Todas as luzes são apagadas.
Apenas duas continuam acessas iluminando as dobras dos lençóis.
Uma luz pertence ao seu coração e a outra à estrela que ilumina suas pegadas.

O silêncio é seu,o silêncio pertence à noite.
O silêncio não pertence à morte,nem à fraqueza de sua foice.
O silêncio está dentro de você,faz parte do seu corpo.
Ele só não cala seu espiríto, nem o seu astral que se faz de morto.

O vento é seu, o vento é o seu movimento.
O vento é seu, o vento é o que você sente.
O vento é seu, inspira o seu sentimento.
O vento é seu, o vento lava a sua mente.

A sombra é sua,a sombra faz vida em sua parede.
A sombra é sua,cria alma,cria corpo para o vento.
A sombra lhe pertende,só ela te entende.
A sombra é sua,é como você,única em cada momento.

Os sintomas são da noite,os sintomas lhe pertencem.
Os sintomas são da natureza,os sintomas lhe completam.
Os sintomas são do vento,os sintomas são as linhas que tecem...
Os sintomas são das sombras,os sintomas a sua imagem afetam.

Os sintomas são de um poeta...
São os sintomas que alguém sente durante um curto tempo de silêncio.
São os sintomas de quem sabe ouvir a noite,
São os sintomas de quem sabe ser.

(4 de fevereiro de 2001)

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