A Garganta da Serpente
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Marco Antônio


SONHOS URBANOS

Estou como que sonhando, tão verdejante à minha pele o teu amor.
Tão claro aos meus olhos a tua imagem...
Vislumbro paisagens e mais coisas que em mim mesmo não são
Estranhas, mas são minhas, são íntimas... De uma forma particular, Excêntricas e nascida.
Estou como que voando... E voar se inunda do teu cheiro.
O orvalho já se esvaece sob meus pés e tua calma não me ignora, Mas me aceita como substrato.
Ouço a lira de um apolo: estou como que amando...
A poesia épica de uma cidade urbana percorre meus ouvidos,
Mas a nitidez só se evidencia em você, como viagens naturais
Que só encontro em seus olhos.
Vejo arlequins dançando com uma graça flébil...
Praças de jardins desbotados esperando tua presença...
Assusto-me com sorrisos abortados e os gestos amputados
De uma cidade urbana.
Mas quando me exponho à tua presença, foge à minha vista as
Doenças impotentes em clarões de sossego,
Eu abro a boca para exalar um sorriso de felicidade incorruptível.
Eu me resvalo sobre a tua aurora, amanheço em teu corpo e
Minha pele verte luz através dos meus poros...

Colho em você sementes de um novo dia, onde irei sentir um vento
Mais brando e, quando não longe de casa, estarei cada dia mais
Inserido em teu ser, ouvindo a lira de um apolo, com poesias épicas,
Longe de qualquer cidade urbana...

(13-14/10/93)

 

 

Fulano que Vibrou e que Morreu...

Vibravam mãos, corpo e pensamento...

Momento lento, cúmplice de sua proposital razão, que fazia vibrar,
Estremecer pernas, cabeça, e pensamento

Existe na vida um momento, um alguém, uma loucura, pelo menos uma vez, que faça estremecer,
Gemer peito, olhos e alma

A natureza de quem nunca desmentiu,
Fiel à razão,
Uma verdade com olhos e bocas,
Com uma violência humana,
Um fulano que morreu de velho, de dor, de solidão

Fatos da vida, cotidiano irremediável, vida que prossegue numa linha férrea,
Abandonada a seguir, destinadamente sempre, que não pára pra sorrir, nem chorar...

Todas as mãos e pernas vibrando, cabeça e pensamento estremecendo
Um peito sem coração, sem criança, ou com tudo isso, mas gemendo... com olhos que choram de risos e de dor.

Tudo por uma composição de tudo,
Pelo momentos, paixões... pela violência, meu Deus!

A natureza que nunca ludibria, ou pelo menos não foi a intenção...

Fulano vibrou, estremeceu, gemeu... sentimentos doados, momentos de sempre numa vida de fogo e de febre.

A natureza que nunca disfarçou... e fulano que morreu de amor pela vida na estação derradeira do seu trem imortal.

(22/05/96)

 

 

PARA OUVIR


Se pudéssemos ouvir os sons de dentro de nós e nossa natureza falasse e, de certa forma, crescemos que isso é a coisa mais linda que existe em termos de som... um som puríssimo...
Nós podemos viabilizar, através de nós mesmos, violências e paixões desenfreadas e canalizadas por todo o corpo extenso para o mundo pequeno.
As vozes que se ouvem em noites de sono denso... vontade de ir-se embora da densidade, sons de noite que não tem som nenhum e, por isso mesmo, as discrepância de inconstantes sentimentos.
Ao ouvir crianças brincando nos parques e suas vozes delicadas e barulhentas, amáveis e ensurdecedoras, confundem-se ao meio-dia com o ronco dos motores automotivos e no deslizar da tarde em brandura,
harmonizam-se com pássaros jovens que exaltam o canto do sono denso para a noite que vem.
Sons urbanos perfuram as mentes que trafegam na vaga inconsciência de chegar a algum lugar, entre transeuntes taciturnos no momento de exaltação e fulgor da lugubridade.
Sons que mexem e direcionam a instrumentação insistente das coisas, coisas de amor, de dor, paixão e insanidade em contornos ascendentes.
Sons selvagens em forças violentas e quase invencíveis, e diría-se que sua embriaguez realiza a onipresença de sua existência.
Soníferos sons... madrigais tranqüilos dançando no ar, deixando alojar-se a densidade do sono bom que dormimos em liberdade sancionada para todos.
E ao se cair na dispersão do som... momentos mágicos que ao fluir, provoca intensidades conotativas dentro da arte boa de sentir o som de mil cores.

(NOV/94)

 

 

LIVRE


Vôo libertário de tantas vozes andando em todos os ouvidos, num trajeto completamente sem propósitos... percorrendo como quem cavalga, numa dança mágica e furiosa, embalada de todos os sons, todos os rítmos... incessantemente...

Gritam aos meus ouvidos todas as vitórias, todas as agonias e desesperos tímidos
Meus ouvidos vêem todas as mulheres, todos os homens, unidos num só grito... gritos de amor e de gozo, de traições e ternuras, de beijos e emoções, num flerte triunfal que só a audição pode ver
... desfilando num palco cego para surdos enxergarem.

Vôo libertário para todos os lugares, todas as galáxias, todas as neuroses e obsessões
Tenho liberdade, tenho o que quero... e eu quero tudo, hoje, ao mesmo tempo, viver tudo o que me foi legado e mais:
tudo que a mim eu legar... quero liberdade.

Vôo libertário de todas as almas, tantas vontades e verdades divulgadas pelos ares, sem medo de assumir seus medos,

...penso sinceramente em te amar... só porque tenho medo e vontade, e sei até que ponto pode ser verdadeira essa liberdade que sinto em teu corpo e alma.

Vôo libertário e sem sentidos, mas com tudo de bom
Tanto céu, tanta cor... arte viva bailando no ar como um flerte magnifíco

Vôo de liberdade porque a hora é viva, a arte é viva... vida de todo dia, como se meus braços se abrissem, feito asas, ruflando como cada dia... uma rotina que viabiliza, que encarna, que encanta, que transforma o mundo num passageiro feliz pelo vôo que sempre terminrá amanhã.

(ABR/96)

 

 

A TUA IMAGEM

Incrível era a bandeira que empunhavas com tanta veemência, cor minha.
O cálice quebrado de minha ilusão propunha o sangue sedimentado pela dor, onde o sorriso era intrínseco ao choro.
Não me disponho mais de tuas lembranças emblemadas de sofrimento. Navego num barco que oscila, desfaz-me da solidão, guia-me entre as águas com suas velas pandas pelas brisas sorridentes da minha imaginação.
Não esqueço tuas fontes, efemeridade eterna que me domina as entranhas e me traz segmentos de tua presença. Por onde prosseguem as dissonâncias dos momentos?
É uma força invertida que busca e rebusca o passado, num saudosismo selvagem que dominava os sentimentos de um querer distante.

Não me abençoe, não me diga de meus sonhos porque eu não quero sabê-los, que cheguem sozinhos, sentem ao meu lado e caminhem comigo pela realidade das conquistas sonhadas. E se me lembrarem de você, eu irei me esvaecer pelos tempos, dissipando-me no ar como um breve esquecimento para me lembrar de você a um bangalô dentro do meu sentimento, de minha raiva, de minha exatidão, de minha personalidade férrea que quer esquecer de tudo.

Atraquei-me a um porto, louco de delírios, e expus-me a vulnerabilidade de sua cor. Meu barco que me guia sem um norte que não seja o coração. Estas são as minhas armas, que não venham me dizer nada, eu só quero saber que não sei. Não quero aprender, quero usufruir o conhecimento.
Minhas mãos de aço frágil tocaram em todas, sentiram todas, mas não passaram ao coração o amor.
Não me perdoe, por mais que queira não me perdoe... Essa suposta criatura de fantasias mil é a parte mais forte e dura, é a relação entre a obscuridade presente e viva. Já sinto rumores dos teus passos, já vislumbro um horizonte com teus traços ascendentes... a maravilha infiel que trai a confiança.
Olho ao redor e não consigo ver nada que não seja tua cor e a bandeira que ostentas com a força onipotente da tua vida.
Não consigo te fugir, não tenho forças para raciocinar... estou aqui, em todo lugar, numa forma onipresente de tudo de mim... Proximidade lenta que perdura, percorre e grita para ficar.
Estou aqui! Não me diga nada, não me perdoe... que eu fique cômico e trágico, que não me conscientize, que me desvirtue, que possa me enveredar por meus caminhos de todo mundo e veja sempre a tua bandeira ilusória com meu coração tatuado numa cor que personifica tua imagem ao meu peito.

(24/08/95)

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