A Garganta da Serpente
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Márcio Coutinho
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PORMENORES

Sangro umidescas gotas
de Dantesco galope
por entre as linhas retorcidas
que me lograstes
Ardo febril
a face pálida
precipitada ilusão da qual acordei
e me fiz cético desvairado
em meu concretismo abstrato,
meu tempo e alma lançada a fogo
Breve a porta de minh’alma
em gestar matéria de minhas rugas
E já que tem pressa, a vida
como a traça ao papel
serei a essência, o pecado, o poema
atado ao desejo, entre ídolos e obras
vadio ao deserto de hipóteses
sem travesseiro, sem sono
fluindo feito droga
doce qual Vinsanto iguário
gargalhando travessos verões
Sinto o sofrer do tempo
à minha mão pesada,
fazendo-me inferno o art’noveau
hedionda estrutura de mil espelhos
onde ferrões travam íntima cirrose
com gosto de derrota
As lições da infância
busco persuadi-las
ou largo-as ao vento
Sem me interrogar
ao que o mar traz a praia
meço a imagem a um breve clarear
relendo o argiloso arquiteto
à olhos cegos

 

 

SONÂMBULO

Ei de tornar patente os meus sonhos
deveras maligno nas vaidades
usual anarquista das palavras
pintor Freudiano entrajado
nas mãos em concha
cheias de ojeriza
qual rapariga traída
a dadivar o indulto, riso escasso
alavancando cristos, crenças
tecendo os cravos da cruz
marcando troncos, enveredados
movidos a pés meninos
tocando a matéria falsa por flácidas horas
Suicídio, riqueza, praga...
morfinesca máquina palmilhando
os cabelos negros da noite
Ah glória córrega em gastos dedos
crespas palavras d'um grito
a assombrar minhas pálpebras
feito fábula metafísica, coito sublime
abismo que não finda
fértil veio engenhoso, ampulheta ingrata
E enquanto vil me é a fuga
grafa-me em lento a libido, cadáver e receio
protagonizando o torpor
onde novas coxas e ventres
em meio ao pó da noite
pergunta teus segredos e te corrói o nada

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última atualização: 24.07.08
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